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Economia

Consumo Familiar Cresce Pouco e Para de Impulsionar o PIB

O consumo das famílias, que vinha sendo o principal motor da economia nos últimos anos, está perdendo força e deve apresentar o menor crescimento desde a pandemia, neste ano e no próximo, conforme indicação de economistas. Com isso, investimentos e exportações devem ganhar maior importância para a recuperação da economia.

Após avanços médios de 3,3% no consumo entre 2021 e 2025, a estimativa é que a alta desacelere para cerca de 1% em 2026 e fique ainda menor em 2027, com alguns especialistas até apontando risco de estagnação.

O consumo, que representa 63% do PIB, tem sido limitado pelo elevado endividamento das famílias, alta no comprometimento de renda e desaceleração no mercado de trabalho e crédito em comparação a anos anteriores.

O estímulo fiscal também tende a diminuir para conter o aumento da dívida pública, que alcançou 82,9% do PIB em agosto, o maior nível dos últimos cinco anos. Esse cenário contrasta com os anos recentes, quando a redução da taxa de desemprego, o aumento dos benefícios sociais e o crescimento do crédito ajudaram a impulsionar o consumo.

Embora o consumo tenha avançado entre 3% e 5,1% nos anos recentes, os sinais atuais indicam cansaço nesse modelo. No segundo trimestre, o consumo das famílias caiu 0,4% em relação aos três meses anteriores, e há risco de nova queda no trimestre seguinte.

As projeções do Boletim Focus indicam uma expansão econômica menor para o próximo ano, de cerca de 1,41%, impactada principalmente pelo enfraquecimento do consumo.

Felipe Camargo, economista da Oxford Economics, destaca que o enfraquecimento do varejo sugere que o ritmo de geração de empregos não deve se repetir como nos últimos anos, já que a taxa de desemprego caiu muito e não pode diminuir tanto novamente tão rápido.

Manoel Pires, do FGV Ibre, aponta que o crescimento do consumo per capita está praticamente estagnado, sinalizando uma mudança comportamental forte que explica a boa performance do mercado de trabalho sem reflexo na popularidade política.

Outro fator importante para a desaceleração é o alto endividamento e comprometimento da renda das famílias, que atingiram 49,9% e 28,7%, respectivamente, segundo dados do Banco Central até julho.

Natália Cotarelli, economista do Itaú Unibanco, observa que o consumo está abaixo do potencial devido aos níveis elevados de dívidas e à renda que é reduzida pelos pagamentos de juros e parcelas, além da desaceleração do crédito.

Apesar do cenário, a economista acredita que o mercado de trabalho ainda dará um suporte mínimo ao consumo, com taxa de desemprego estimada em 6,2%, um índice considerado baixo.

Silvia Matos, do FGV Ibre, aponta que esse momento representa o fim de uma ilusão baseada em estímulos governamentais que sobrecarregaram tanto o orçamento público quanto o privado, destacando que o consumo inflado por políticas fiscalistas insustentáveis não termina bem.

Ela enfatiza que a tentativa de aumentar a demanda por meio de gasto público em um contexto fiscal vulnerável obriga o Banco Central a manter juros altos por mais tempo, o que pode gerar efeitos colaterais negativos para a economia.

A especialista compara essa tensão entre política fiscal e monetária a um “cabo de guerra”, onde os juros altos funcionam como um medicamento que precisa ser usado por muito tempo, mesmo com efeitos adversos.

A previsão é que a alta do consumo desacelere ainda mais, chegando a cerca de 0,9% em 2027, com cenários mais pessimistas indicando até retração ou estagnação, dependendo das decisões fiscais do próximo governo.

Luís Fernando Cezario, economista-chefe da Asset 1, ressalta que a dinâmica do consumo como principal força do PIB se esgotou, especialmente com a redução do estímulo fiscal para o próximo ano.

Nos próximos anos, é esperado que o investimento e as exportações tenham um papel mais relevante para a atividade econômica, ainda que não compensem completamente a desaceleração do consumo, segundo Camargo.

Ele aponta oportunidades de crescimento em investimentos em infraestrutura portuária ligada à exploração da Margem Equatorial e em data centers.

Silvia Matos também acredita que o modelo econômico centrado na demanda das famílias está esgotado e que é necessária uma transformação estrutural, com o PIB liderado por investimentos e ganhos de produtividade para garantir sustentabilidade.

Natália Cotarelli destaca que essa mudança é importante e que o investimento será o principal motor para um crescimento econômico mais equilibrado, mas que isso depende da redução dos juros para se concretizar.

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