Pular para o conteúdo
Dólar R$ 5,08 ▼ 0,57% Euro R$ 5,87 ▼ 0,00% Libra R$ 6,84 ▼ 0,18% Bitcoin R$ 333.134 ▲ 0,34%
Brasil

Brasileiros presos por tráfico humano no Camboja enfrentam vigilância e tortura

Cidadãos tailandeses, suspeitos de envolvimento em golpes online, sentados no posto de controle fronteiriço internacional de Poipet, entre Camboja e Tailândia. FOTO: DIVULGAÇÃO / AGÊNCIA DE IMPRENSA DO KAMPUCHEA (AKP)

VICTORIA DAMASCENO
POIPET, CAMBOJA (FOLHAPRESS)

A jovem cambojana So Raksa, de 26 anos, estava celebrando seu casamento em casa com o marido, familiares e amigos quando uma operação policial aconteceu em um condomínio próximo, a cerca de 200 metros de sua residência na cidade de Poipet, no Camboja. “Foi uma surpresa pela quantidade de policiais”, relata.

Na área, havia principalmente um gramado baixo, onde pessoas de várias nacionalidades corriam para fugir. Elas estavam presas em um esquema de golpes, onde grupos criminosos mantêm pessoas iludidas com promessas de trabalho bem pago, mas que, ao chegarem, são forçadas a aplicar golpes eletrônicos, vítimas do tráfico humano.

A mãe de So Raksa, Hoeung Heab, de 44 anos, contou que viu sinais de agressão nessas pessoas. “Alguns tinham olhos roxos e machucados nos braços e pernas”, disse, mencionando que já levou água para elas, uma das fontes de renda da família. “Os chefes eram violentos e espancavam quem estava dentro”, afirmou.

Edifícios próximos sediavam esses grupos que já haviam atraído brasileiros. João (nome fictício), 25 anos, esteve no local por algumas horas antes de ser transferido para outro prédio. Ele explicou que as vítimas eram atraídas por ofertas como US$ 4.000 por 12 horas de trabalho semanais, com folga aos domingos e um contrato anual.

Poipet, na fronteira com a Tailândia, é reconhecida como um polo de tráfico humano no Camboja. Dados do Ministério da Justiça de 2025 indicam que o país foi o principal destino de brasileiros vítimas nessa situação, com 44 de 84 casos registrados.

O número de casos cresceu 33% em relação ao ano anterior. Antes, Filipinas, Laos e Camboja eram os principais destinos, mas 2024 foi o primeiro ano de registro detalhado, não permitindo comparações anteriores.

O ministério reconhece que as estatísticas são subestimadas, pois nem todas as vítimas procuram ajuda pública.

O trabalho forçado foi o principal motivo do crime em 2025, com 49 ocorrências no Camboja, todas envolvendo as vítimas em condições de escravidão.

Paulo (nome fictício) viajou à Tailândia e foi levado a Poipet. Após três meses trabalhando em funções indiretas aos golpes e vendo muitos brasileiros chegando, ele pediu para sair, mas foi ameaçado de prisão e sua família, de retaliações. Foi então forçado a aplicar golpes.

Brasileiros ouvidos pela Folha de S.Paulo e por organizações como The Exodus Road e Anistia Internacional relataram terem sido atraídos com promessas de salário em dólar, moradia e benefícios, mas, ao chegar, foram obrigados a aplicar fraudes sob ameaças de tortura.

O dia a dia das vítimas era sob vigilância constante e intimidação. Punições incluíam tapas, socos e choques elétricos, e ocorriam quando recusavam trabalhar, tentavam comunicar autoridades ou não atingiam os resultados exigidos.

Os passaportes eram confiscados ao chegar, com a desculpa de que a empresa cuidaria do visto, mas nunca eram devolvidos. Elas assinavam contratos de um ano que as endividavam, com descontos no salário para cobrir custos de passagem, alimentação e acomodação, o que reduzia significativamente o pagamento final.

Atrasos e erros também resultavam em descontos.

Uma vítima mostrou um documento listando custos que impediram sua saída, incluindo transporte, aluguel do escritório, alimentação, internet, taxas de proteção e recarga de celulares, somando US$ 12.439 (cerca de R$ 64 mil).

Além das dívidas, a segurança dificultava a fuga. Nos complexos de Poipet, havia múltiplos pontos de controle, muros altos com arame farpado e câmeras, monitorando sem pontos cegos.

Os prédios, localizados longe do centro, ficavam cercados por áreas vazias e causavam impacto econômico nas redondezas, como a perda de renda para vizinhos, disse Hoeung Heab, que se sentiu aliviada quando os complexos foram fechados.

O cenário é semelhante em outras cidades do Camboja, como Sihanoukville e Phnom Penh. Esses centros de golpes surgiram após proibição de jogos online em 2019, aproveitando a estrutura e conexões dos cassinos fechados.

Atualmente, o governo cambojano intensifica ações contra essa prática, pressionado internacionalmente por países como Estados Unidos e China, com uma campanha iniciada em julho de 2025.

Profissionais de saúde relataram atendimento a muitos estrangeiros feridos que escaparam dos complexos, com ferimentos graves que exigiram cirurgias. Muitos foram deportados logo após o atendimento.

Organizações questionam a eficácia das operações, apontando falhas, continuidade das atividades ilícitas, criminalização das vítimas e conluio entre autoridades e gerentes.

O ministro da Informação do Camboja, Neth Pheaktra, afirmou que o país leva as denúncias a sério e que ninguém está acima da lei, independentemente do cargo.

Ele declarou que o governo investigará qualquer autoridade suspeita de apoiar ou lucrar com esses crimes.

Neth Pheaktra também mencionou cooperação ativa com o Brasil para combater golpes online, repatriar cidadãos e resolver casos envolvendo brasileiros detidos.

Publicidade
Boletim Imprensa Pública

Comece o dia bem informado

O essencial do DF, do Entorno e do Brasil, de graça, no seu e-mail.