CLÁUDIA COLLUCCI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A maioria dos brasileiros acredita que o Brasil ainda não aprendeu lições suficientes com a Covid-19 e está mal preparado para enfrentar outra crise de saúde pública, segundo pesquisa do Datafolha feita para o Instituto Todos pela Saúde, que atua em epidemiologia.
O estudo mostra que 53% dos entrevistados acham que o Brasil não está pronto para uma nova epidemia ou pandemia, enquanto 28% acham que está pouco preparado. Só 18% acreditam que há uma boa organização para responder a uma nova emergência, e 1% não soube responder.
Realizada com 2.002 pessoas com mais de 16 anos no país, entre 10 e 11 de novembro de 2025, a pesquisa revela uma desconfiança generalizada e sensação de vulnerabilidade. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com 95% de confiança.
Especialistas dizem que esses números mostram que, apesar dos mais de 700 mil mortos pela Covid no Brasil, não houve avanço suficiente nas capacidades institucionais para futuras crises.
O médico Gerson Penna, diretor-presidente do Todos pela Saúde, destaca que o problema é antigo: o Brasil não tem as ferramentas legais e institucionais para agir em pandemias. “Essa situação já vem de muito tempo. O Brasil está atrasado”, afirma ele.
Ele explica que, enquanto o mundo criou muitos centros especializados em saúde pública nas últimas décadas, o Brasil ficou para trás. “Até 2000, havia 54 instituições desse tipo no mundo; entre 2000 e 2020, surgiram mais 39; e desde 2020, mais 29. O mundo está se preparando, e o Brasil não.”
A professora Deisy Ventura, da Faculdade de Saúde Pública da USP, ressalta que o tema deveria ser prioridade política desde o início do governo atual. “Isso precisava ser foco desde o primeiro ano”, diz.
Ela avalia que o país falhou em analisar corretamente sua resposta à pandemia de Covid, sem aprender com erros e acertos. “Não houve um balanço sério sobre decisões, impactos ou a gestão da pandemia. Nem construímos uma base legal a partir da experiência.”
Segundo o Datafolha, 49% dos brasileiros estão muito preocupados com novas crises sanitárias, e 36% têm um nível médio de preocupação.
Quando comparam o futuro à pandemia recente, 46% dizem que se sentiriam menos seguros em outra pandemia do que na Covid.
O médico José Gomes Temporão, ex-ministro da Saúde e pesquisador da Fiocruz, diz que a preocupação do povo está alinhada com a ciência. “Se sabe que haverá outra pandemia. Só não sabemos quando.”
Ventura aponta que conflitos armados, doenças que voltam a aparecer e o avanço do negacionismo científico aumentam os riscos. “Os intervalos entre pandemias estão ficando menores. Nada indica que isso vai mudar.”
Para Penna, o aumento da percepção de risco pode ser positivo. “O mundo está conectado. Um agente infeccioso pode se espalhar rápido. A consciência das pessoas pode pressionar por mudanças importantes.”
Há consenso na população: 9 em cada 10 brasileiros se sentiriam mais seguros se o país tivesse um centro de controle de doenças, uma instituição permanente, técnica e autônoma para responder a emergências sanitárias.
Penna, que já foi secretário de vigilância em saúde, participou da criação de uma proposta para esse centro. “Nos inspiramos em vários países para criar algo adaptado ao SUS, que ajudaria o governo com base científica nas fases de preparação, resposta e recuperação.”
O projeto prevê que o centro esteja ligado ao Ministério da Saúde, mas com governança compartilhada, com um conselho presidido pelo ministro da Saúde e participação de estados, municípios e entidades técnicas.
Para que o centro funcione, é fundamental aprovar uma lei nacional para enfrentar emergências sanitárias, afirma Penna. “Hoje o Brasil não tem uma base legal permanente para isso.”
Durante a pandemia, o país teve que aprovar leis emergenciais que perderam validade após a crise. “Ficar sem base legal depois da emergência é um erro grave.”
Um projeto de lei já está pronto na Casa Civil e deve ser enviado ao Congresso. A proposta é que seja uma política de Estado, que permita uma atuação coordenada, independentemente do governo.
Ventura acredita que é preciso uma política clara, baseada em evidências, com responsabilidades definidas e proteção social, incluindo regras sobre governança, vacinação, comunicação e responsabilização. “Sem isso, cometeremos os mesmos erros, não importa quem esteja no governo.”
Na pesquisa, médicos e profissionais de saúde são as fontes de informação mais confiáveis para 58% dos entrevistados durante emergências sanitárias. Depois vêm a OMS (Organização Mundial da Saúde) com 41%, e o Ministério da Saúde e outras instituições governamentais com 40%.
Políticos são considerados confiáveis por apenas 3%, familiares e amigos por 20%, e líderes religiosos por 9%.
Quase todos (99%) buscam informação em pandemias, usando em média quatro fontes diferentes, sendo as mais citadas profissionais ou unidades de saúde (88%), televisão (78%), redes sociais (72%) e sites de notícias (71%).
No entanto, 61% relatam dificuldade para saber em quem confiar, demonstrando o impacto da desinformação. “A propaganda contra a saúde pública ainda é ativa e não punida, o que é ruim para futuras crises”, alerta Ventura.

