BRUNO LUCCA
FOLHAPRESS
O Brasil não terá autorização para produzir o medicamento genérico lenacapavir, uma injeção usada para prevenir o HIV. Essa decisão foi tomada pela farmacêutica Gilead Sciences, que detém a patente do remédio. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou recentemente o registro do medicamento para ajudar a evitar a infecção pelo vírus, principalmente por sexo.
Mesmo com a aprovação, ainda é preciso definir o preço máximo pela CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos) para que o remédio seja oferecido pelo SUS. A inclusão do medicamento na rede pública será avaliada pela Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) e pelo Ministério da Saúde.
A farmacêutica Gilead já concedeu licença para produção de versões genéricas do lenacapavir em 120 países que têm baixa renda, mas o Brasil não está listado entre eles. Conforme a empresa, o país é considerado com melhor capacidade financeira para custear a saúde pública, portanto, outras estratégias, como a negociação de preço, são usadas para facilitar o acesso aqui.
A Gilead mantém o compromisso de colaborar com autoridades e parceiros para garantir o acesso ao medicamento conforme as regras vigentes. Porém, o preço pode ser um desafio para que o lenacapavir seja distribuído pelo SUS.
Beatriz Grinsztejn, pesquisadora principal do estudo para implementação do lenacapavir no Brasil pela Fiocruz e presidente da International Aids Society, afirma que é lamentável o país ficar de fora da lista de genéricos, o que pode dificultar a oferta pelo SUS.
Um estudo publicado na revista científica Lancet em 2023 mostrou que o remédio poderia custar muito menos se fosse produzido por laboratórios genéricos. Atualmente, o tratamento custa cerca de US$ 25,3 mil por pessoa ao ano nos Estados Unidos, podendo chegar a quase US$ 45 mil em situações específicas. Com genéricos, o valor poderia variar entre US$ 25 e US$ 47 anuais.
A Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids) criticou o preço elevado e pediu que a farmacêutica reduza o custo para que o mundo tenha uma chance real de controlar a Aids.
O Ministério da Saúde e a Anvisa informaram que a decisão sobre a fabricação do remédio no Brasil é responsabilidade da Gilead.
Como funciona o medicamento?
O lenacapavir age diretamente no capsídeo do HIV, que é a estrutura que protege o vírus e permite que ele se reproduza. O remédio interfere nesse processo, fazendo com que o vírus abra essa proteção no momento errado, impedindo sua replicação.
Essa abordagem é diferente dos antirretrovirais tradicionais, que atuam em enzimas do vírus mas podem ser menos eficazes devido a mutações. Por agir no capsídeo, o lenacapavir dificulta que o vírus desenvolva resistência, porque mutações nessa parte comprometem o próprio vírus.
Além disso, o medicamento tem a vantagem de ser aplicado a cada seis meses, facilitando o tratamento.
HIV/AIDS no Brasil
De acordo com o Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025 do Ministério da Saúde, o Brasil ainda enfrenta desafios na prevenção, mas também tem avanços importantes.
Em 2024, foram registrados 39.216 casos de HIV, um pouco mais que em 2023. Já os casos de Aids diminuíram em 1,5%, assim como a mortalidade, que atingiu o menor nível da série histórica, com 9.157 óbitos.
A maior parte das novas infecções ocorre entre homens jovens de 20 a 29 anos, com transmissão predominante por via sexual.
