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sábado, 17/01/2026

Brasil identifica novas chances de negócio com acordo UE-Mercosul

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Em Brasília

NATHALIA GARCIA
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

O governo do Brasil descobriu várias oportunidades para expandir seus negócios em setores como aviação e siderurgia, com base em um estudo sobre o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul.

Este acordo ainda precisa ser aprovado pelo Parlamento Europeu e pelos legislativos dos países do Mercosul, e foi assinado recentemente em Assunção, no Paraguai.

De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em 2024 o Brasil exportou para a União Europeia veículos aéreos, como helicópteros e aviões, totalizando US$ 662,6 milhões. Esse valor representa menos de 2% dos US$ 36 bilhões que a Europa importa nesta categoria.

O estudo cruzou os produtos onde o Brasil é competitivo globalmente e que a Europa compra bastante, mesmo quando sua participação nas importações europeias é até 10%.

Na área de equipamentos, o Brasil exportou US$ 1,2 bilhão em máquinas, equipamentos, caldeiras, reatores nucleares e instrumentos mecânicos à União Europeia em 2024, enquanto o continente europeu importou um total de US$ 736 bilhões desse grupo.

Segundo a Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), o acordo pode aumentar em 25% a 30% as exportações brasileiras de eletroeletrônicos para a Europa no médio prazo, além de facilitar a diversificação dos fornecedores de insumos para a indústria.

Para o governo, esses dados reforçam a intenção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que o Brasil avance para além do papel tradicional de exportador de commodities.

“Queremos produzir e vender produtos industriais com maior valor agregado”, afirmou Lula após encontro bilateral no Rio de Janeiro com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

A secretária de Comércio Exterior do MDIC, Tatiana Prazeres, destaca que o acordo vai além de favorecer exportações para a União Europeia, trazendo também acesso a tecnologia e meios mais eficientes para a indústria brasileira, ajudando a aumentar sua produtividade.

“Nossos estudos mostram que as exportações brasileiras para o mundo todo também crescem graças ao acordo [UE-Mercosul]”, explicou Tatiana, acrescentando que o tratado oferece um ambiente com mais segurança jurídica e estabilidade para as empresas.

Setores como siderurgia podem ganhar espaço com a exportação de tubos e perfis ocos de ferro ou aço, enquanto os segmentos químico e farmacêutico têm potencial em produtos como hidrogênio, gases raros e medicamentos.

André Passos Cordeiro, presidente-executivo da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), menciona que a União Europeia historicamente impôs barreiras não tarifárias ao setor químico, mas agora o acordo facilita o comércio com o reconhecimento mútuo de certificações.

André vê o tratado também estrategicamente importante diante das tarifas americanas impostas pelo ex-presidente Donald Trump, com mecanismos para lidar com desequilíbrios comerciais respeitando normas da Organização Mundial do Comércio.

Porém, desafios existem, como os altos custos das matérias-primas para a indústria química, que colocam o Brasil e a Europa em desvantagem em relação à China e aos Estados Unidos, limitando o comércio a produtos de maior valor.

“O desafio para o Brasil é avançar em melhorias estruturais para aumentar a competitividade, pois ainda temos dificuldades em logística e custo de capital comparado à Europa”, apontou André.

O acordo também oferece oportunidades para madeiras e móveis. A Abimóvel (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário) considera este pacto um passo importante para reposicionar o setor no mercado internacional.

Com a diminuição da participação dos Estados Unidos no mercado de móveis, que caiu para 23,5% em 2025, a expectativa do setor está agora focada na Europa, destacou o ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral, que atua na defesa do setor em negociações internacionais.

Estudos da Abimóvel indicam que o acordo poderá aumentar em 20% as exportações brasileiras de móveis para a Europa já no primeiro ano de vigência.

Em 2024, o Brasil exportou US$ 57,95 milhões em móveis para a União Europeia, valor modesto diante dos US$ 32 bilhões que a Europa importa mundialmente.

Países como França, Alemanha e Espanha são mercados abertos ao mobiliário brasileiro, e o acordo facilita a entrada em novos mercados no Leste Europeu.

Welber Barral mencionou a lei antidesmatamento da União Europeia como um desafio burocrático que exigirá adaptação de toda a cadeia produtiva, incluindo madeira e celulose.

Outros produtos com potencial de crescimento na pauta de exportação para a Europa incluem couro preparado de bovinos e equídeos, óleo de soja e preparações alimentícias como suplementos e confeitos. Alguns mercados, como o de roupas de moda praia, também são vistos como promissores, ainda que não tenham sido mapeados pelo MDIC.

A secretária de Comércio Exterior do MDIC reconhece que a concretização dessas oportunidades depende de vários fatores, mas após muitos anos de negociação, ela acredita que este é o momento de focar em transformar essas possibilidades em negócios reais.

“Será preciso um diálogo próximo com o setor privado, ações de promoção comercial, aproximação entre empresas dos dois lados, apresentação das oportunidades e compreensão dos benefícios do acordo”, concluiu Tatiana Prazeres.

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