O Ibovespa caiu 13,88% nesta segunda-feira (26), atingindo o menor nível desde 17 de julho, e ativou o mecanismo de circuit breaker pela primeira vez em seis anos. A reação negativa foi causada pela surpresa com a vitória de Lula nas eleições presidenciais, contrariando as expectativas de boa parte do mercado, que apostava na vitória do senador Flávio Bolsonaro.
Durante o pregão, o índice chegou a recuar 17,34%. Ao mesmo tempo, o dólar subiu 8,41%, chegando a R$ 5,409, com alta máxima de 12,32% a R$ 5,604, níveis que não eram vistos desde 1999. Os juros futuros também tiveram forte alta devido à maior aversão ao risco dos investidores.
Thomas Haugaard, gestor de portfólio na Janus Henderson, disse que o resultado das eleições gerou surpresa porque o mercado já precificava uma vitória do Bolsonaro, enquanto o risco da vitória de Lula estava subestimado.
Às 17h06, as taxas para contratos de DI para janeiro de 2027 e janeiro de 2031 subiram, respectivamente, para 13,696% e 15,190%. O risco-Brasil elevou-se para 19,15%, indicando uma maior desconfiança dos investidores quanto à capacidade do país de honrar seus compromissos financeiros.
A queda da Bolsa reverteu ganhos das semanas anteriores, que ocorreram com a expectativa da vitória do Bolsonaro. Entre os destaques em alta na Bolsa, empresas exportadoras como Suzano, Vale, Embraer, WEG, Bradespar e Klabin tiveram valorização, beneficiadas pela alta do dólar.
Mudança de expectativas
A reeleição de Lula trouxe preocupações sobre a continuidade de políticas fiscais expansionistas, que podem elevar o custo de financiamento do governo e pressionar os juros. Taxas mais altas tornam o crédito mais caro e podem reduzir os lucros das empresas, afetando a Bolsa.
Instituições financeiras revisaram suas recomendações após o resultado. O J.P. Morgan reduziu sua exposição ao real e aos títulos públicos brasileiros, enquanto o BTG Pactual prevê venda expressiva de ações e desvalorização do real entre 10% e 15%.
Rebecca Nossig, estrategista da Nomad, disse que o acionamento do circuit breaker reflete o aumento da aversão ao risco e a busca dos investidores por segurança no dólar enquanto aguardam definições claras sobre as políticas econômicas futuras.
Daniel Teles, sócio da Valor Investimentos, ressaltou que o mercado espera maior gasto público, políticas populistas e aumento da dívida, com impactos negativos especialmente para setores sensíveis aos juros, como o varejo, enquanto empresas com receitas em dólar se saem melhor.
Pesquisas com gestores de fundos indicaram que a maioria esperava quedas significativas no Ibovespa e desvalorização do real após a vitória de Lula. A trajetória futura da Bolsa e do dólar dependerá, no entanto, das decisões sobre política fiscal do novo governo, podendo haver reversão das expectativas iniciais.
O analista João Daronco destacou que o movimento forte no pós-eleições pode se consolidar ou não, conforme as ações do candidato eleito para controlar as contas públicas.


