ALÉXIA SOUSA
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)
Ter uma arma de fogo em casa durante situações de violência doméstica pode aumentar em 85% as chances de que a agressão resulte em morte, de acordo com um estudo do Instituto Sou da Paz divulgado neste domingo (8).
O cálculo foi feito comparando mulheres feridas e mortas por diferentes tipos de armas, explica Carolina Ricardo, diretora-executiva do instituto. “As armas de fogo matam muito mais mulheres do que apenas causam ferimentos”, esclarece.
Carolina destaca que esses dados ajudam a entender o impacto da presença de armas de fogo no ambiente doméstico. “Quando há uma arma de fogo envolvida, a chance de a agressão resultar em morte é muito maior”, afirma.
Segundo o levantamento, 47% dos homicídios de mulheres registrados no Brasil em 2024 foram cometidos com arma de fogo, com base em dados do sistema de saúde analisados para a pesquisa. No entanto, nos casos de feminicídio, ou assassinatos motivados por violência de gênero, o uso de armas brancas, como facas, é mais comum, conforme outro estudo divulgado recentemente pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O estudo mostra que 48,7% dos feminicídios no país foram cometidos com armas brancas, enquanto 25,2% envolveram armas de fogo. Em 2025, o Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio, representando um aumento de 4,7% em comparação ao ano anterior.
Embora os dois estudos apresentem diferenças nos percentuais, isso ocorre porque eles avaliam grupos diferentes: o Instituto Sou da Paz considera todos os homicídios de mulheres, independentemente da motivação, enquanto o relatório do fórum se baseia em boletins de ocorrência classificados especificamente como feminicídio.
Especialistas ressaltam que ter uma arma dentro de casa não só eleva o risco de morte, mas também serve como instrumento constante de intimidação dentro da relação abusiva. “Existem casos em que homens dormem com a arma sob o travesseiro ou a deixam à vista para intimidar a mulher”, comenta a diretora-executiva do Sou da Paz.
A pesquisadora também menciona episódios de violência não letal em que o armamento é predominante. “A arma de fogo dentro de casa aumenta o risco de morte e está presente em casos de violência sexual e psicológica.” Para a cientista social Silvia Ramos, diretora do CESeC (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania), isso ocorre porque a presença da arma aumenta o poder de ameaça do agressor.
“Ter uma faca em casa é comum, mas uma arma representa um meio muito mais forte de intimidação”, explica.
Além disso, muitas vezes a ameaça ocorre sem o uso direto da arma. “Às vezes, basta olhar para o lugar onde a arma está guardada para que a mulher sinta uma ameaça intensa.”
O debate também está ligado ao aumento da circulação de armas no país nos últimos anos. A partir de 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, houve mudanças na política de armamento que facilitaram o acesso de civis a armas e munições, especialmente para caçadores, atiradores e colecionadores (CACs).
Essas medidas foram revogadas em 2023, no governo de Lula (PT), mas as armas adquiridas no período continuam em circulação. Atualmente, existem cerca de 1,3 milhão de armas registradas nas mãos de CACs no país. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União indicou falhas no controle desses registros e apontou que mais de cinco mil condenados pela Justiça conseguiram manter ou renovar certificados de CAC entre 2019 e 2022.
Para Carolina Ricardo, controlar o uso dessas armas é fundamental. “Houve um aumento significativo no número de registros. Agora, a fiscalização está sendo reforçada e o controle está na Polícia Federal. Garantir a rastreabilidade das armas é essencial para reduzir riscos.”
Ela também destaca mudanças na Lei Maria da Penha que exigem que, ao registrar casos de violência doméstica, autoridades perguntem se o agressor possui arma de fogo.
“Se for confirmado que há uma arma, o delegado deve solicitar ao juiz que essa arma seja apreendida e comunicar os órgãos responsáveis. Essa medida é importante porque sabemos que a presença da arma torna a violência muito mais letal.”
