Alexa Salomão e Lucas Marchesini
São Paulo e Brasília, None (Folhapress)
No domingo, 16 de novembro, um dia antes da prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, houve muitos acontecimentos. O jatinho registrado na holding dele, Viking, saiu de Belo Horizonte com destino a Brasília, chegando por volta das 17h30. Três horas depois, partiu para São Paulo.
Os advogados do banqueiro preferiram não comentar essa rápida visita à capital federal, num domingo em que outros eventos relacionados ao caso também aconteceram.
Naquela tarde, Vorcaro decidiu adiar para antes o anúncio público da compra do Banco Master pela Fictor Holding Financeira em parceria com investidores internacionais. Inicialmente, a divulgação estava prevista para a sexta-feira seguinte, dia 21, após o feriado da Consciência Negra. A notícia foi informada à imprensa à tarde, na segunda-feira (17).
Segundo pessoas próximas que acompanharam os preparativos, a pressa para antecipar o anúncio ocorreu devido ao vazamento da negociação. Naquela manhã de domingo, o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, publicou que o banqueiro apresentaria propostas de venda de ativos importantes a investidores estrangeiros até quarta-feira (19).
No mesmo domingo, Vorcaro mudou seus planos de viagem ao exterior, adiando de quarta-feira para segunda-feira. A Folha teve acesso às alterações dos planos de voo da aeronave.
A Folha também mostrou que às 15h, no domingo 16 de novembro, houve uma assembleia de cotistas que mudou regras de um fundo financeiro ligado a Vorcaro e ao Banco Master, chamado Termópilas, que tinha só um cotista. As regras de resgate e amortização foram alteradas.
Dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) indicam que o patrimônio do fundo caiu cerca de R$ 1 bilhão.
Esse fundo é o principal acionista da Super Empreendimentos e Participações SA, que tem capital superior a R$ 2,5 bilhões. O pastor e cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, foi diretor da companhia entre 2021 e 2024. A assessoria de imprensa do banqueiro confirmou que Zettel é sócio da Super, mas disse que a relação de Vorcaro com a empresa é só comercial.
O dia 16 também teve importância nas investigações sobre a suspeita de venda fraudulenta de carteiras do Banco Master para o Banco de Brasília (BRB). Às 20h55, um juiz da 10ª Vara Criminal do Distrito Federal autorizou buscas e apreensões nas casas dos principais suspeitos, incluindo Vorcaro.
Especialistas em segurança interpretaram que a operação aconteceria em breve, mas o juiz decidiu analisar o pedido de prisão separadamente, conforme a decisão judicial.
Com a antecipação do anúncio da venda, executivos e advogados começaram a chegar cedo à sede do Banco Master na manhã de segunda-feira (17).
Entre 13h30 e 14h10, Vorcaro fez uma chamada de vídeo com funcionários do Banco Central. Participaram o diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino Santos, e os chefes do departamento de supervisão bancária, Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza.
O banqueiro informou que a venda do Banco Master seria formalizada naquele dia e que viajaria à noite para Dubai, onde encontraria investidores internacionais.
Segundo pessoas próximas, ele já havia mencionado essa viagem em uma videoconferência feita em 11 de novembro, poucos dias antes da prisão.
Enquanto o grupo se preparava para divulgar publicamente a venda, às 15h29 o juiz autorizou a prisão dos suspeitos.
Vorcaro saiu da sede do banco à noite, disse que iria para casa arrumar as malas e depois seguiria para Dubai. Foi preso por agentes da operação pouco antes das 23h no aeroporto de Guarulhos, horário incomum para prisões desse tipo, que normalmente ocorrem pela manhã.
Embora o voo tivesse parada em Malta, o destino final era Dubai. Vorcaro tinha pelo menos três planos de voo diferentes. Investigadores acreditam que isso indica uma tentativa de fuga do país, não apenas uma viagem para fechar a venda do banco.
Fontes próximas afirmam que ele viajava internacionalmente com frequência e que, se quisesse fugir, já teria deixado o país. A viagem mais recente também foi a Dubai, entre 3 e 9 de novembro, retornando ao Brasil no dia 10, uma semana antes da prisão.
