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Brasil

Alerta falso mostra falhas e pode abalar confiança no aviso da Defesa Civil

Foto: Reprodução

Isabela Palhares e André Fleury Moraes
São Paulo, SP (FolhaPress) – Um possível ataque hacker que enviou um alerta falso de evento extremo com a palavra “misantropia” através da Defesa Civil revelou falhas no sistema de segurança do país e pode causar a perda da confiança das pessoas nos alertas, segundo especialistas consultados pela Folha.

O governo federal reconhece o problema. O secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, Wolnei Wolff, declarou na manhã deste sábado (20) que a situação “é muito grave para o sistema, ainda mais porque lidamos com a segurança das pessoas, com vidas”.

“Claro que isso não é bom para a credibilidade do sistema. Pelo contrário, é muito ruim.”

O coordenador do Ceped (Centro de Estudos e Pesquisas sobre Desastres do Estado de São Paulo) da USP, o pesquisador Eduardo Mario Mendiondo, afirma que o ataque é especialmente sério pois expõe vulnerabilidades no acesso ao sistema, além de ocorrer justamente quando o país se prepara para a chegada do El Niño.

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“Ainda não estamos na temporada de chuvas, mas imagine se isso acontecesse numa época em que as pessoas dependem dos alertas da Defesa Civil para se preparar? Milhões de pessoas seriam afetadas. Este incidente, às vésperas do El Niño, causa grande preocupação sobre como evitar alertas falsos”, explica.

Além disso, Mendiondo diz que, na área de redução de riscos de desastres, os alertas de eventos extremos são fundamentais para evitar danos. Por isso, é importante que os sistemas usados para emitir esses avisos sejam seguros e recebam os investimentos necessários.

“Estamos falando de um sistema de resiliência que precisa ser apoiado para cuidar das pessoas. Um sistema que atinge milhões em todo o país deve ser forte e confiável.”

“Isso também evidencia a urgência de uma articulação entre os diferentes níveis da Defesa Civil — estadual, municipal e federal. O Brasil avançou nessa política nos últimos dez anos, mas ainda há muito a fazer.”

Os primeiros alertas falsos foram enviados à população de Curitiba, no Paraná, na noite de sexta (19). Outros foram disparados durante a madrugada de sábado em áreas de São Paulo, Sergipe e Distrito Federal, entre outras. O governo federal não informou ao certo quais locais foram atingidos nem quantas pessoas receberam as mensagens.

Estima-se que o sistema da Defesa Civil enviou dez tipos diferentes de alertas falsos, atingindo milhões de pessoas — embora não seja possível precisar quantas receberam efetivamente as mensagens, segundo o secretário Wolff.

A plataforma foi desativada por volta de 1h30 da manhã de sábado e ainda não tem previsão de retorno. “Quando ela voltará? Quando pudermos garantir a segurança, trocar as senhas e evitar novos ataques”, afirmou o secretário.

O advogado e perito digital, especialista em cibersegurança, José Milagre, explicou à Folha que o maior perigo é a perda de confiança no sistema de alertas.

“Se as pessoas começarem a duvidar das mensagens, podem ignorar avisos verdadeiros em casos reais de enchentes, tempestades ou outros desastres, aumentando o risco para a segurança pública”, disse.

Sobre a investigação, Milagre ressaltou que é cedo para conclusões. “Tudo depende da análise dos dados. A Polícia Federal está preparada para identificar se o acesso foi interno ou externo”, comentou, sendo também coordenador do núcleo de crimes cibernéticos da CyberExperts.

Como funciona o sistema

Diferente dos alertas por SMS, que enviam mensagens de texto normais, a tecnologia Cell Broadcast interrompe outras funções do celular, como vídeos e aplicativos, disparando um alarme sonoro e vibratório para alertar o usuário.

Todo celular numa área próxima a antenas 4G ou 5G do local em risco recebe a mensagem, independentemente de o dono ter cadastrado seu número para receber alertas.

Essa funcionalidade, chamada Defesa Civil Alerta, complementa outras formas de avisos, como SMS, TV a cabo, WhatsApp, Telegram e Google Public Alerts. Em São Paulo, foi adotada pelo governo Tarcísio de Freitas após uma enchente em fevereiro de 2023 que matou 65 pessoas no litoral norte.

Características do Cell Broadcast

  • Não exige cadastro prévio da população da área afetada;
  • Alcance instantâneo para celulares na área de risco ligados às antenas 4G ou 5G;
  • O alarme toca e vibra mesmo com o celular no modo silencioso;
  • A mensagem aparece na tela em um pop-up, mesmo se o usuário estiver usando outra função;
  • O pop-up só desaparece se o usuário fechá-lo; caso contrário, o som e a vibração continuam até isso acontecer.
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