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Economia

3 razões pelas quais a crise hoje também atrapalha o Brasil no futuro

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Pandemia pegou a economia brasileira em situação fragilizada e crises longas trazem perdas de capital humano e físico que repercutem no futuro

Pedestres usam máscaras protetora, na Rua Alfandega, no Rio de Janeiro, Brasil, 23 de julho de 2020. (Andre Coelho/Bloomberg)

Você já ouviu falar em histerese? O termo é emprestado da física e se refere aos materiais que, após modificados, não voltam para sua forma original. Algo parecido acontece na economia.

“A histerese é uma conexão entre flutuação cíclica e crescimento de longo prazo que está sendo cada vez mais estudada”, diz o economista Ricardo Menezes, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Um dos trabalhos seminais da área foi publicado em 1986 por Olivier Blanchard, futuro economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) e Lawrence Summers, futuro secretário do Tesouro dos Estados Unidos e reitor da Universidade Harvard. Mas o tema ganhou ainda mais atenção no pós-2008.

“A crise financeira confirmou a doutrina da histerese mais fortemente do que qualquer um poderia supor”, diria Summers já em 2014.

No caso da crise da covid-19, é cedo para dizer quais serão os efeitos de longo prazo, já que o mundo ainda está no olho do furacão. Mas no caso do Brasil, há motivos para preocupação.

A pandemia pegou a economia em situação já fragilizada após a brutal recessão de 2015 e 2016 e uma retomada tímida desde então, com crescimento anual na faixa do 1%.

“O que torna nossa situação dramática é que para além das crises, ela está durando muito tempo: a recuperação foi a mais lenta de todos os tempos, e quando a recuperação ainda não havia se concluído, tomamos uma nova crise na cabeça”, diz Menezes.

Recentemente, ele explicou para  quais são os mecanismos da histerese:

Capital humano e físico

Nenhum país na história ficou rico depois de ficar velho, e o Brasil está atualmente vivendo o auge do seu bônus demográfico, como mostrou.

Isso significa que nunca tantas pessoas estiveram em idade de trabalhar. Em tese, este seria o melhor dos mundos, já que o tamanho da economia é basicamente fruto de quantas pessoas trabalham multiplicado por quanto cada uma produz.

O problema é que com o desemprego alto e muita gente trabalhando menos do que gostaria, este potencial está sendo desperdiçado, com efeitos que perduram ao longo do tempo na perda de habilidades e empregabilidade.

“Vários estudos mostram que jovens que chegam numa epoca difícil ao mercado tem problemas mais pra frente, como salário menor e desemprego maior. Eles não tem chance de experimentar e achar sua melhor ocupação e acabam perdendo capital humano. Essa geração vai ter problemas para o resto da vida”, diz o economista Naércio Menezes, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper.

Outro mecanismo pelo qual a histerese atua é pela deterioração de capital físico. Quanto mais tempo as empresas ficam com as suas máquinas paradas, menos motivos elas têm para investir em máquinas novas e melhores.

Todo este aparato estará desatualizado quando a economia voltar a crescer, problema agravado em períodos de rápida inovação tecnológico. Além disso, o investimento baixo já é há algum tempo nosso “calcanhar de aquiles”, na definição do economista Fabio Giambiagi.

De acordo com dados do World Economic Outlook do FMI levantados pelo Ibre/FGV, aproximadamente 90% dos países do mundo (152 países de uma amostra de 172) tiveram uma taxa de investimento maior do que a do Brasil em 2018.

O mundo apresentou, em média, uma taxa de investimento 10 pontos percentuais maior do que o Brasil naquele ano, quando o pior da crise já havia passado. Enquanto isso, os países emergentes investiram, em média, mais que o dobro do que o Brasil. Os últimos dados mostram que a situação permaneceu essencialmente igual em 2019.

Fuga de cérebros e produtividade

Uma crise econômica longa também significa perda de crença no futuro. As pessoas mais capacitadas e educadas ganham motivos, portanto, para migrar em busca de oportunidades melhores em outro lugar, em um fenômeno conhecido como “fuga de cérebros”.

São estes mesmos trabalhadores que poderiam ter mais capacidade de inovar e abrir novos negócios caso a situação estivesse mais favorável no seu país de origem. Além disso, as grandes corporações globais estão engajadas em uma busca internacional pelos melhores talentos, acelerando o processo.

Somados, estes fatores significam que o efeito histerese pode estar comprometendo a capacidade do Brasil crescer no futuro, quando a situação demográfica estará menos favorável, através da perda de PIB potencial.

É possível contrabalançar esse efeitos com alta de produtividade, que é o quanto cada trabalhador produz individualmente, através de reformas como as defendidas pela equipe econômica, mas até certo ponto.

“Tudo que uma reforma pode contribuir para aumentar o crescimento potencial pode ser consumido pela histerese”, diz Ricardo Menezes. O debate é amplo sobre o que pode feito para mudar o cenário, mas o recado é claro: passou da hora de tratar o conjuntural e o estrutural como dois lados da mesma moeda.

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Economia

Impacto da Covid na economia alemã pode ser menor do que o temido

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Alemanha agiu rapidamente para aumentar os gastos e esse dinheiro, junto com outro impulso do BCE, parece ter amortecido o impacto da pandemia

Terminal portuário em Haburgo, Alemanha (Fabian Bimmer/Files/Reuters).

 

A Alemanha pode resistir à recessão provocada pela pandemia melhor do que o esperado, sugeriram indicadores do setor privado nesta terça-feira, em um sinal de esperança para a economia que tradicionalmente serve como motor de crescimento da Europa.

Com boa parte da atividade econômica ainda restringida pela Covid-19, o governo da Alemanha agiu rapidamente para aumentar os gastos e esse dinheiro, junto com outro impulso do Banco Central Europeu, parece ter amortecido o impacto da pandemia.

A projeção para o Produto Interno Bruto agora é de contração de apenas 5,2% neste ano, disse o instituto Ifo, mais otimista do que sua estimativa anterior de queda de 6,7% e da previsão do banco central de contração de 7,1%.

“O declínio no segundo trimestre e a recuperação estão atualmente se desenvolvendo mais favoravelmente do que esperávamos”, disse o economista-chefe do Ifo, Timo Wollmershaeuser.

Para 2021, o instituto cortou sua previsão de crescimento de 6,4% para 5,1%, mas mesmo isso indica que a economia da Alemanha pode ficar próxima do nível pré-crise ao final do próximo ano. O BCE ainda espera que a zona do euro como um todo precise de mais um ano para compensar o declínio.

Parte da melhoria prevista partiu do consumo inesperadamente resiliente, e a associação de varejo HDE disse que espera que as vendas nominais no varejo cresçam 1,5% este ano, uma revisão para cima acentuada de sua estimativa anterior de queda de 4%.

(Reportagem de Michael Nienaber)

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O preço da gasolina da Petrobras está em linha com o mercado internacional, mas o do óleo diesel está defasado, diz especialista

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Precisamos que a dívida seja vista como estável ao longo do tempo. Precisamos de reforma emergencial, no curto prazo, administrativa”, diz ex-chefe do BC

Ex-presidente do Banco Central do Brasil, Ilan Goldfajn: “A taxa de juros não ficará em 2%, mas não voltará mais a dois dígitos” (Adriano Machado/Reuters)

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PIB argentino sofre queda histórica de 19,1% no 2º tri

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Bandeira argentina com a frase: “força, Argentina” em rua com comércio fechado em Buenos Aires. 20 de junho de 2020. (Ricardo Ceppi/Getty Images)

O Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina registrou contração de 19,1% no segundo trimestre deste ano, em comparação com igual período de 2019, de acordo com cálculos preliminares do Instituto Nacional de Estatísticas e Censo (Indec), divulgados nesta terça-feira, 22.

Em relação ao primeiro trimestre, a atividade econômica teve retração de 16,2%. No semestre como um todo, a queda foi de 12,6%.

Segundo a instituição, o desempenho negativo foi puxado pelos setores de hotéis e restaurantes, que tiveram tombo anualizado de 73,4%, seguido por atividades de serviços comunitários sociais e pessoais (-67,7%).

“As restrições globais à circulação de pessoas com objetivo de mitigar a pandemia de covid-19 afetam a um conjunto significativo de atividades econômicas em todos os países”, destaca o Indec, em relatório.

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Proposta de reforma administrativa pode ser ampliada, diz secretário

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Segundo o secretário especial de Desburocratização, o próprio Congresso poderá ampliar o escopo da reforma durante sua tramitação

Secretário especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital, Caio Paes de Andrade (Leandro Fonseca/Exame)

O secretário especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital, Caio Paes de Andrade, afirmou nesta terça-feira que o governo optou por não encaminhar uma reforma administrativa que afetasse todos os servidores dos demais Poderes (Legislativo e Judiciário) para evitar o que chamou de “judicialização precoce”, mas ele afirmou que o próprio Congresso poderá ampliar o escopo da reforma durante sua tramitação.

“Não mandamos uma reforma (administrativa) pronta, mandamos um arcabouço para que aconteça o que chamamos de uma reforma da nova administração pública”, afirmou Paes de Andrade em live promovida pela corretora Necton.

A proposta de reforma apresentada pela equipe econômica no início deste mês poupou parlamentares, magistrados e militares de medidas destinadas a restringir uma série de benefícios, como férias de mais de 30 dias e aposentadoria compulsória como punição.

 

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Espanha enfrenta problema incomum: como gastar bilhões contra a crise

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Absorver dinheiro extra repentinamente é um desafio para o país, que não consegue aprovar orçamento anual desde 2016 por causa de uma paralisia política

Madri, Espanha 31/7/2020 (Javier Barbancho/Reuters)

Depois de garantir uma porção generosa dos fundos de recuperação da União Europeia para combate à crise do coronavírus, a Espanha enfrenta um problema inusitado — como fazer uso de todo o dinheiro, disseram fontes do governo à Reuters.

“Esta não é uma crise de dinheiro, é uma crise de ideias”, disse uma das fontes, referindo-se a projetos de investimento concretos para ajudar a economia a sair de uma recessão recorde.

Em um país que não conseguiu aprovar um orçamento anual desde 2016 por causa de uma prolongada paralisia política, a necessidade de absorver dinheiro extra repentinamente é um desafio, disseram as fontes.

A Espanha foi especialmente atingida pela pandemia. O país registrou mais de 640 mil casos de Covid-19, o maior número de infecções na Europa Ocidental, e a doença matou mais de 30 mil vidas espanholas.

A economia espanhola despencou 18,5% no segundo trimestre, contração superada na Europa apenas pelo Reino Unido.

Para ajudar a Espanha a se recuperar, o país receberá cerca de 140 bilhões de euros em subsídios e empréstimos do pacote de recuperação do coronavírus da UE, de 750 bilhões de euros.

Isso inclui 43 bilhões de euros em subsídios apenas nos próximos dois anos — o equivalente a cerca de 8% das despesas anuais.

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Hoje é

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

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