Devemos tirar o chapéu para um dos maiores gestores de comunicação do DF: Wellington Moraes. Com ampla experiência na área, passou pelos governos Arruda, Agnelo, Ibaneis e agora Celina. Esquerda, direita, centro — não importa. Ele fica.
E uma habilidade ninguém pode negar que ele tem: aquietar a mídia nos momentos de escândalo. Existiu escândalo na saúde, na educação, nas obras. E ele conseguiu. A poeira baixou, a pauta esfriou, o assunto morreu.
Qual governo não faz isso? Afinal, a ideia é sempre manter a boa popularidade dos seus. O problema não é esse. O problema é como — e com o dinheiro de quem.
Onde estão os que lutaram pela mídia democrática?
Há uma divergência a ser considerada: onde estão aqueles que lutaram pelo direito da mídia democrática?
Em 2014, uma emenda à Lei Orgânica do DF — fruto da luta da então deputada Luzia de Paula ao lado de um grupo de comunicadores — garantiu aos veículos locais o direito de receber no mínimo 10% do orçamento da publicidade oficial, desde que devidamente cadastrados e com audiência comprovada. Está lá, no artigo 149 da Lei Orgânica.
Sabe quando esse direito foi regulamentado? Só em janeiro de 2026. Doze anos na gaveta. Enquanto isso, a verba de publicidade do GDF saltou de R$ 73 milhões em 2022 para R$ 200 milhões em 2025.
E o que acontece na prática é diferente do papel. Quem vive do jornalismo local no DF conhece a regra não escrita: o site — ou o dono do site — não pode, em hipótese nenhuma, ter divergência política. Não pode explanar uma opinião. Não pode mostrar a crise. Se isso acontecer, contam os comunicadores, a ordem vem de cima: suspende o repasse.
Como poderíamos chamar isso? Ditadura gospel?
Em nome de Deus
Boa parte do governo é composta por pessoas que professam uma fé inabalável. Fé é direito de todos — o problema é quando ela vira porteira. Aquela fé que só dá acesso a quem vai lá, beija os pés e declara: somos seus ativistas, estamos dispostos a tudo por vocês. Inclusive mentir. Inclusive denegrir.
Mas, me passa um PI aí?
Que fique registrado: a crítica não é ao povo de fé. É a quem usa a fé como crachá de entrada no cofre público — e engana primeiro os próprios fiéis, que trabalham, pagam imposto e nunca viram a cor de um PI.
A falta de fiscalização do direito
Hoje não existe um deputado, uma instituição, um órgão que defenda o direito de todos. O TCDF audita os critérios de distribuição dessa verba? O MPDFT já foi provocado? A Câmara Legislativa, que aprovou a emenda em 2014, cobra sua execução?
Ninguém. E é por isso que o balcão funciona.
O balcão
Esse governo Celina é um governo que é bom apenas para quem o idolatra. Virou balcão. A lógica de funcionamento todo mundo do meio conhece: veio beijar os pés? Falou que a saúde funciona, que a gestão é maravilhosa, que a deputada é de direita de verdade? Libera o PI. Ousou criticar? Mostrou a fila do hospital, a escola sem professor? Corta o repasse e ativa a militância digital para cima do veículo. Dane-se o direito.
Em nome de Jesus, amém.
O dinheiro da publicidade não é do governo. É do contribuinte. E imprensa que só existe se elogiar não é imprensa — é assessoria terceirizada paga com o seu imposto.
Este é um artigo de opinião. O espaço está aberto para resposta da Secom-DF e dos citados.
