NATHALIA GARCIA
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
Uma auditoria no BRB (Banco de Brasília) está examinando uma operação ligada ao Banco Master, aumentando as dúvidas sobre a atuação de antigos dirigentes do banco, incluindo o ex-presidente Paulo Henrique Costa, segundo fontes próximas à instituição.
É preocupante que Daniel Vorcaro, proprietário do Master, Maurício Quadrado, seu ex-sócio, e João Carlos Mansur, da administradora de fundos Reag, tenham se tornado acionistas do BRB de forma oculta, por meio de fundos de investimento, enquanto o banco do Distrito Federal ampliava seu capital em R$ 1 bilhão em 2024.
Esses fatos geram suspeitas entre os investigadores de que o aumento de capital do BRB por meio da oferta de ações tinha como objetivo permitir que o banco do Distrito Federal realizasse negócios com o Master.
Essa investigação serviu de base para um inquérito da Polícia Federal que apura se a antiga administração do BRB sabia quem estavam por trás dos fundos e se facilitou a entrada desses indivíduos — investigados pela operação Compliance Zero — como acionistas do banco. O foco está em possíveis crimes de gestão fraudulenta e arriscada de instituição financeira.
Se o Banco Central tivesse aprovado a compra do Master pelo BRB, essa estrutura através dos fundos poderia permitir que Vorcaro influenciasse o banco do DF, embora de maneira oculta. Essa aprovação foi negada pela autoridade monetária em setembro do ano passado.
A entrada recente de novos fundos acionistas do BRB antes da compra de carteiras suspeitas do Master chamou a atenção da auditoria liderada pelo escritório Machado Meyer Advogados, com suporte da Kroll. Descobriu-se que Vorcaro, Quadrado e Mansur eram cotistas nesses fundos.
Os dois aumentos de capital do BRB, totalizando cerca de R$ 1 bilhão, foram divididos em uma primeira operação de R$ 250 milhões e outra de R$ 750 milhões.
As ações foram oferecidas via subscrição privada, permitindo compra apenas para acionistas existentes do banco.
Na primeira etapa, o fundo Borneo, da Reag, adquiriu 44% das ações; na segunda, em dezembro, o fundo Deneb, ligado ao Master, comprou outra parte. Outros fundos, como Verbier e Delta, também adquiriram ações ou recibos de subscrição e têm relação com operações do Master sob investigação.
A Polícia Federal investiga a complexa rede financeira usada pelo Master para adquirir ações do BRB, buscando entender por que Vorcaro escolheu essa operação em vez de uma compra direta.
Procurado, o ex-presidente Paulo Henrique Costa não comentou as suspeitas. Pessoas próximas dizem que ele se considera injustiçado, afirmando que desconhecia a estrutura dos beneficiários finais até aprovar o processo junto ao Banco Central em abril de 2025.
Entre o aumento de capital e a aprovação, ocorreram mudanças no mercado secundário e nas cotas dos fundos, alterando os beneficiários, segundo essas fontes.
A auditoria constatou que os nomes e fundos que participaram da compra de ações do BRB coincidem com os envolvidos na fraude da compra de carteiras de crédito de R$ 12,2 bilhões.
O BRB informou que encontrou “achados relevantes” no relatório preliminar da auditoria forense contratada.
O trabalho, iniciado em dezembro, foca na compra e substituição das carteiras adquiridas do grupo ligado a Vorcaro. O banco planeja atualizações mensais e conclusão até abril.
Recentemente, o BRB atualizou informações à CVM, revelando Mansur como um dos principais acionistas, detendo 4,5% do capital, com direitos a voto e ações preferenciais.
O ex-sócio de Vorcaro deixou presidência da Reag em setembro de 2025 para administrar danos após a operação Carbono Oculto. A Reag é alvo de investigação da Polícia Federal por suspeita de lavagem ligada ao PCC no mercado financeiro.
A Folha não conseguiu contato com a defesa de Mansur.
No formulário do BRB, além de Mansur, o fundo Borneo detém cerca de 3,1% das ações do banco.
Após a revelação da participação de Vorcaro, sua defesa afirmou que o Master tem ações no BRB pela sua holding, devidamente registrada e dentro das regras do mercado.
“A aquisição ocorreu dentro de aumento de capital aprovado pelo Banco Central. Daniel Vorcaro continua colaborando com as investigações”, disse a defesa.
A assessoria de Maurício Quadrado afirmou que sua participação veio da compra no mercado secundário de recibos de subscrição do BRB.
“Esses recibos foram pagos ao banco pelo fundo vendedor meses antes da compra por Quadrado, sem gerar novos recursos ao BRB. Portanto, não houve impacto no patrimônio líquido do banco, e não se pode dizer que a operação inflou seu capital artificialmente.”
