JORGE ABREU
FOLHAPRESS
Em 2025, a violência contra os povos indígenas aumentou em comparação ao ano anterior, conforme um relatório divulgado pelo Cimi (Conselho Indigenista Missionário), ligado à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Os casos de assassinato, estupro e suicídio foram os que tiveram maior crescimento.
Os estados com o maior número de homicídios com intenção foram Roraima (82), Amazonas (47) e Mato Grosso do Sul (37), que estão entre os cinco com maior população indígena, segundo o Censo de 2022.
De acordo com o censo, os estados com maior população indígena são:
- Amazonas: 490,9 mil
- Bahia: 229,4 mil
- Mato Grosso do Sul: 116,4 mil
- Pernambuco: 106,6 mil
- Roraima: 97,6 mil
No total, foram 258 assassinatos de indígenas em 2025, 22% a mais que os 211 casos registrados em 2024. Vicente Fernandes Vilhalva, indígena Kaiowá e Guarani de 36 anos, foi morto com um tiro na cabeça, e outros quatro indígenas ficaram feridos em um ataque ocorrido em 16 de novembro em Mato Grosso do Sul. Essa área, chamada Iguatemipeguá I, ainda não tem demarcação oficial e sofre conflitos por terra.
Um dia depois do incidente, a Marcha Global dos Povos Indígenas em Belém lembrou Vicente e outras vítimas, em protesto contra a violência nas terras indígenas brasileiras. Esse evento coincidiu com o início da segunda semana da COP30, conferência climática da ONU.
A violência sexual também aumentou, com 25 casos em 2025, acima dos 20 de 2024. As vítimas principais são meninas menores de idade, abusadas por professores, familiares e estranhos.
Além disso, o relatório destaca outros tipos de violência: 19 casos de abuso de poder, 18 ameaças de morte, 27 outras ameaças, 33 lesões corporais, 38 tentativas de assassinato e 46 casos de racismo e discriminação étnico-cultural, além de 10 homicídios sem intenção.
Um exemplo chocante foi o caso de um adolescente indígena na Ilha do Bananal (TO) que teve a pele marcada com ferro usado para identificar gado enquanto trabalhava para um fazendeiro. Essa foi a segunda vez que isso aconteceu em menos de um ano, mostrando a persistência do racismo contra indígenas no Brasil.
Os suicídios entre indígenas também cresceram, passando de 208 em 2024 para 215 em 2025. Amazonas (77), Mato Grosso do Sul (42) e Roraima (37) lideram essas estatísticas. A maioria dos casos ocorreu entre jovens de 20 a 29 anos (41%) e menores de 19 anos (34%).
O número de mortes de crianças indígenas até quatro anos aumentou para 1.024 em 2025, 11% mais que os 922 em 2024. Os estados com mais óbitos são Amazonas (306), Roraima (158) e Mato Grosso (123). A maioria dessas mortes (57%) poderia ser evitada, com causas comuns como gripe, pneumonia, doenças intestinais e desnutrição.
Também foram registrados casos de falta de assistência geral, educação e saúde, além de problemas relacionados ao álcool e outras drogas.
O relatório aponta que o aumento da violência está ligado à lei do marco temporal, que limita a demarcação das terras indígenas apenas a áreas ocupadas até 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. Embora essa tese tenha sido considerada inconstitucional pelo STF, ela foi transformada em lei pelo Congresso após pressão do setor ruralista.
O Cimi observa que essa legislação agravou os conflitos e a violência contra indígenas desde 2024, principalmente nos territórios com disputas fundiárias.
Em 2024, foram registrados 1.241 casos relacionados à morosidade na regularização das terras, conflitos territoriais e invasões. Esse número subiu para 1.276 em 2025, com aumento nas situações de ocupação ilegal e danos aos patrimônios indígenas.
Como destaca o cardeal Leonardo Ulrich Steiner, presidente do Cimi, a violência contra os povos indígenas é cruel e persistente, agravada pela omissão do Estado e pela demora na demarcação de terras, um direito que está sendo negado há décadas.
