JORGE ABREU
FOLHAPRESS
Na noite de quinta-feira (5), um indígena quase foi atropelado quando o vereador Malaquias Mottin (PL), dirigindo um carro conversível, tentou passar por um bloqueio na BR-163, em Santarém (PA), em frente à sede da empresa Cargill, do setor do agronegócio. Outros manifestantes filmaram o ocorrido.
O grupo está protestando há 15 dias na entrada da empresa, contra o decreto nº 12.600/2025, que incluiu trechos do rio Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND). Esse decreto abre caminho para a concessão e privatização da manutenção da navegabilidade, incluindo trabalhos como dragagem.
Em comunicado nas redes sociais, Mottin afirmou que foi cercado, atacado e ferido por manifestantes que estavam com pedaços de madeira. Ele disse que, já agredido e temendo pela sua vida, usou do direito de se proteger e conseguiu sair do local.
No carro também estava a esposa do vereador, que é cadeirante. O comunicado acrescenta que ela conseguiu se esquivar e ficou em estado de muito desespero, sofrendo um grande abalo psicológico ao ver o marido em perigo.
Uma testemunha contou que o vereador chegou filmando e entrou no local do protesto com o carro. Quando algumas pessoas tentaram impedir a passagem, ele avançou com o veículo.
O Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita), que representa 14 povos do Baixo Tapajós, fez uma nota de repúdio à atitude do vereador, destacando que no local do protesto há crianças e idosos.
O movimento indígena repudia a tentativa de intimidação e reafirma que o protesto é legítimo e pacífico, em defesa do rio Tapajós, dos territórios e do direito à consulta livre, prévia, informada e de boa-fé.
A principal reivindicação dos indígenas é a revogação do decreto, que também abrange os rios Madeira (RO) e Tocantins (TO).
Na quarta (4), os manifestantes bloquearam a avenida Fernando Guilhon, que dá acesso ao aeroporto de Santarém, após reunião sem acordo com representante do governo federal, mas liberaram a via na mesma noite.
Nesta quinta, houve nova reunião dos manifestantes com o governo do presidente Lula, encerrando o ato. Outra reunião está marcada para sexta-feira (6) com objetivo de encerrar o protesto que já dura mais de duas semanas.
O projeto de hidrovias já foi alvo de protestos durante a COP30, conferência do clima das Nações Unidas realizada em novembro em Belém. Na ocasião, as ministras Sônia Guajajara, dos Povos Indígenas, e Marina Silva, do Meio Ambiente, afirmaram que a consulta prévia com as comunidades seria feita, porém essa promessa não foi cumprida.
O Ministério dos Povos Indígenas afirmou em nota que reconhece a legitimidade das preocupações e reafirma que nenhuma ação relacionada à dragagem, manutenção hidroviária ou qualquer outro empreendimento no rio Tapajós pode avançar sem o consentimento livre, prévio, informado e de boa-fé dos povos diretamente afetados, conforme a convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Constituição Federal.
