ANA BOTTALLO
FOLHAPRESS
A vacina contra a dengue criada pelo Instituto Butantan continua eficiente, protegendo 80,5% contra casos graves e situações com sinais de alerta, mesmo após cinco anos de estudo.
Durante a pesquisa, foram registradas oito hospitalizações por dengue, nenhuma delas em pessoas que receberam a vacina, mostrando que ela também evita internamentos e complicações da doença.
Este imunizante é o primeiro com dose única no mundo contra esta doença. Ele protege de forma geral contra qualquer tipo de dengue em 65% dos casos, número acima do mínimo exigido pela Organização Mundial da Saúde, que é 50%.
Os dados foram apresentados em um artigo científico na revista Nature Medicine por pesquisadores do Instituto Butantan, do Centro de Pesquisa em Medicina Tropical (RO) e da Fiocruz de Recife, entre outros.
Esper Kallás, diretor do Butantan e principal autor do estudo, comentou que a maior dificuldade foi manter o acompanhamento durante a pandemia de Covid-19, quando as pessoas evitavam sair de casa.
A redução dos casos de dengue neste período também ocorreu por causa da circulação menor do vírus e por outras infecções, como a do coronavírus, além do menor contato entre as pessoas.
A dengue é geralmente leve, mas quem tem uma segunda infecção por outro tipo do vírus pode desenvolver a doença de forma grave. Existem quatro tipos do vírus, e uma pessoa pode ser infectada mais de uma vez.
Até 21 de fevereiro deste ano, foram registrados 95.809 casos prováveis, com 18 mortes confirmadas e outras 115 sendo investigadas.
O estudo principal aconteceu entre 2016 e 2019, com 16.235 participantes de 2 a 59 anos. A análise dos cinco anos mostra que a vacina continuou protegendo contra a dengue confirmada desde 28 dias após a aplicação.
Os cientistas também analisaram a proteção por tipo de vírus e pelo histórico de dengue das pessoas. A vacina protegeu 77,1% das pessoas que já tinham dengue antes e 58,9% das que não tinham sido infectadas.
Quanto aos tipos do vírus, a vacina protegeu 73% contra o tipo 1 e 55,7% contra o tipo 2. Não foi possível avaliar os tipos 3 e 4 porque não circularam durante o estudo.
A proteção foi maior para quem já teve dengue antes: 77,1% para o tipo 1 e 79,4% para o tipo 2, enquanto para quem nunca teve a doença foi 58,9% e 36,7%, respectivamente. Segundo Kallás, essa diferença não compromete a eficácia da vacina.
Devido à forma como a vacina foi feita, incluindo o genoma completo dos tipos 1, 3 e 4 e uma forma modificada do tipo 2, a preocupação era que a proteção para o tipo 2 fosse baixa, mas isso não ocorreu.
Estudos nos Estados Unidos com voluntários infectados pelos tipos 3 e 4 mostraram que a vacina pode garantir boa proteção quando esses vírus estiverem circulando.
Importante destacar que, até agora, não houve casos em que a vacina tenha piorado a doença, nem sinais de agravamento relacionado à resposta imunológica da vacina.
A segurança da vacina também foi confirmada durante o acompanhamento, com efeitos colaterais leves como dor de cabeça, cansaço e dor no corpo, e sem efeitos graves.
A Anvisa aprovou o uso da vacina em novembro do ano passado para pessoas entre 12 e 59 anos, e a vacinação começou em janeiro deste ano. O Butantan já enviou 1,3 milhão de doses para o programa nacional de vacinação.
Kallás explicou que testes com pessoas acima de 60 anos começaram junto com a publicação dos resultados, com expectativa de conclusão até o fim do ano para solicitar a atualização da bula.
