O uso de cerca de 600 milhões de litros de agrotóxicos anualmente no Cerrado está aumentando os problemas de qualidade e quantidade da água na região, alertam grupos ambientais. Próximo ao Dia Mundial da Água, comemorado em 22 de março, essas organizações destacam que a poluição e a escassez afetam grande parte das bacias hidrográficas do Cerrado, área essencial para o abastecimento de água do Brasil.
As instituições que fazem parte da campanha “Cerrado Coração das Águas”, como ISPN, Instituto Cerrados, Rede Cerrado, Funatura, IPAM, IIEB e WWF-Brasil, indicam que a expansão da agricultura, o desmatamento e o uso intenso de produtos químicos prejudicam a capacidade do bioma de manter seus ciclos naturais de água.
A maior parte dos pesticidas usados (aproximadamente 63%) é aplicada nas plantações de soja, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A agropecuária consome 58,6% da água no Brasil, aumentando a pressão sobre regiões como o Cerrado, informa a Agência Nacional de Águas (ANA).
Pesquisa feita por cientistas da Universidade de Brasília (UnB) estudou 81 bacias do Cerrado entre 1985 e 2022 e constatou que 88% delas tiveram queda no volume de água. O estudo prevê que até 2050 o bioma pode perder até 35% de suas reservas hídricas, principalmente pela mudança no uso do solo e pelo desmatamento.
“O Cerrado está perdendo sua capacidade de produzir e controlar a água. O jeito como a terra é usada hoje afeta diretamente a disponibilidade desse recurso”, destaca o pesquisador Yuri Salmona, da UnB e do Instituto Cerrados.
Contaminação
Além da diminuição da água, especialistas apontam o aumento da contaminação. Em 2025, o Brasil registrou 9.729 casos de intoxicação por agrotóxicos, recorde segundo dados do Ministério da Saúde compilados pela Repórter Brasil.
“A água do Cerrado está sendo ameaçada por um modelo de produção que combina desmatamento, uso intenso de produtos químicos e alta demanda por água. Isso compromete a segurança hídrica do país”, alerta a ecóloga Isabel Figueiredo, do ISPN.
O Cerrado é conhecido como o berço das águas no Brasil, fornecendo água para importantes bacias como São Francisco, Tocantins-Araguaia e Prata. A bacia do São Francisco, por exemplo, teve sua vazão mínima reduzida pela metade nas últimas décadas, de 823 m³/s para 414 m³/s.
Comunidades tradicionais também sentem os impactos. Elizete Barreto, de uma comunidade de Fundo e Fecho de Pasto no oeste da Bahia, afirma: “Nas últimas cinco décadas, perdemos 97% do nosso território e mais de 60 nascentes desapareceram. A água está sumindo e, com ela, a vida.”
As organizações envolvidas pedem a ampliação das áreas protegidas, recuperação de nascentes e o reconhecimento das terras de povos tradicionais para frear o avanço da degradação.
O alerta acontece também diante de preocupações locais: um projeto aprovado pela Câmara Legislativa do Distrito Federal permite a transferência de 716 hectares na região da Serrinha do Paranoá para o Banco de Brasília (BRB). Essa área faz parte da Área de Proteção Ambiental do Planalto Central, que abriga 119 nascentes e áreas preservadas de Cerrado. Organizações ambientais temem que novos empreendimentos nessa área prejudiquem a segurança da água no entorno do Lago Paranoá.
Estadão Conteúdo
