JÉSSICA MAES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Com a intenção de fortalecer a pesquisa focada no desenvolvimento sustentável do segundo maior bioma brasileiro, várias universidades criaram, em 16 de setembro de 2025, o Instituto Nacional do Cerrado.
Mercedes Bustamante, professora de ecologia na Universidade de Brasília (UnB), onde o instituto estará sediado temporariamente, e especialista no cerrado, destaca que essa área concentra importantes desafios ambientais atuais.
“Os efeitos das mudanças climáticas já são perceptíveis, a transformação do uso do solo por desmatamento e agricultura é acelerada, e existem conflitos socioambientais graves, que afetam a segurança alimentar, dos recursos hídricos e a energia”, explica ela.
A pesquisadora, que foi escolhida como primeira diretora executiva da nova entidade, ressalta que o instituto será um local para desenvolver estratégias inovadoras com impacto tanto nacional quanto global.
“É essencial conciliar a agricultura com a conservação da biodiversidade, a estabilidade climática e a justiça social, o que exige soluções específicas e bem fundamentadas”, complementa.
Entre agosto de 2024 e julho de 2025, o cerrado perdeu 7.235 km² de vegetação nativa, a menor devastação nos últimos cinco anos, embora ainda equivalente a quase cinco vezes a área da cidade de São Paulo. Esse bioma é a savana mais rica em biodiversidade do mundo e origem da maioria das bacias hidrográficas do Brasil, embora seja uma zona de expansão do agronegócio, principal causa do desmatamento local.
“Já existe uma rede robusta de universidades, institutos federais e centros de pesquisa que trabalham com ciência avançada sobre o cerrado”, afirma Bustamante. “Mas é necessário um espaço onde soluções para os complexos problemas socioambientais possam ser organizadas e distribuídas em larga escala.”
O lançamento do instituto, uma associação civil, reuniu reitores e pesquisadores de 19 instituições de ensino superior da região.
Os acadêmicos esperavam que o governo federal criasse a entidade, vinculada ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que já tem outras unidades focadas em biomas específicos, como a Amazônia, Pantanal, Mata Atlântica e Caatinga.
No entanto, em agosto, o ministério reconheceu a importância da proposta, mas informou que não havia orçamento para implementá-la. Agora, o instituto vai buscar a classificação como organização social e a subsequente vinculação ao MCTI por contrato de gestão.
Esse modelo, mais ágil e econômico, é já adotado por outros centros como o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) e o Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo), oferecendo maior autonomia para captar recursos externos.
Bustamante destacou que o financiamento foi uma questão fundamental para a criação da associação. “Estamos explorando diferentes fontes de recursos e planejamos iniciar com uma estrutura enxuta e eficiente”, declarou.
A diretoria executiva provisória do instituto é completada por Laerte Guimarães Ferreira, professor da Universidade Federal de Goiás, que assume o cargo de diretor administrativo-financeiro com mandato de seis meses.
Ferreira afirmou: “Este é um passo importante para fortalecer a pesquisa e apoiar a transição ecológica no país”.

