PAULO SALDAÑA
FOLHAPRESS
Mesmo com a proibição para menores de 18 anos, as apostas esportivas, conhecidas como bets, já atingem aproximadamente 33% dos estudantes do ensino médio no Brasil. Geralmente, essas apostas começam por volta dos 11 anos, aumentando com a idade.
Essa informação vem de um levantamento realizado pela Frente Parlamentar Mista de Educação, em conjunto com o Equidade.info, divulgado em 9 de janeiro. Foram entrevistados 1.912 alunos de 191 escolas em todo o país, com um índice de confiança de 95% e margem de erro de 2,4 pontos percentuais.
No ensino fundamental (6º ao 9º ano), 16,2% dos alunos já apostaram, enquanto no ensino médio esse número sobe para 27,3%. Entre os estudantes de 11 anos, 9,5% afirmam ter apostado, percentual que subiu para 32,3% aos 17 anos e 40,1% entre aqueles com 18 anos ou mais.
Meninos tendem a apostar mais do que meninas, com 19% contra 13% no final do fundamental e 41% contra 12% no médio. Entre adultos também, homens apostam mais frequentemente que mulheres.
A prevalência é semelhante em escolas públicas e privadas, mas nas públicas, 7,4% dos alunos dizem ter ganhado mais do que perdido, enquanto, nas privadas, 9,5% afirmam ter perdido mais do que ganho.
Quando se observa o nível de escolaridade da mãe, 22,7% dos estudantes cujas mães têm até o ensino fundamental já apostaram. Esse valor diminui para 19,6% para mães com ensino médio ou técnico, e sobe para 22,8% para mães com ensino superior. O estudo destaca que os mais vulneráveis são alunos de famílias com mais bens, matriculados em escolas públicas, e cujos pais não possuem ensino superior.
Quatro em cada dez alunos que já apostaram online não sabem dizer se ganharam ou perderam mais com as apostas. A inclusão de educação financeira nas escolas não tem sido suficiente para reduzir essa exposição.
“Estamos lidando com uma prática que pode prejudicar a saúde financeira e o futuro de toda uma geração”, afirma a presidente da Frente, deputada Tabata Amaral (PSB/SP).
O professor e pesquisador da Universidade de Stanford, Guilherme Lichand, comenta que esses números preocupam e levantam questões importantes. “As apostas estão concentradas em eventos esportivos, especialmente futebol? Como crianças e jovens descobrem essas plataformas? Como driblar as restrições de idade, que são desafios tanto para sites de apostas quanto para redes sociais?”
A Frente Parlamentar Mista de Educação mantém uma parceria desde 2024 com o Equidade.info, uma iniciativa sem fins lucrativos com apoio de instituições como a Universidade de Stanford, Fundação Lemann, institutos Unibanco e Itaú, Google, entre outros.
O grupo escuta regularmente estudantes e educadores e realiza pesquisas sobre temas como o uso do celular nas escolas.
A exposição de crianças e adolescentes às apostas esportivas viola o ECA Digital, em vigor desde março. Essa norma exige que plataformas implementem mecanismos eficazes para verificar idade ao oferecer produtos proibidos para menores, como bebida alcoólica, cigarros, apostas e conteúdo impróprio. Não basta perguntar apenas se o usuário tem 18 anos.
