VITOR HUGO BATISTA
ORLANDO, EUA (FOLHAPRESS)
Um estudo brasileiro revelou que transplantes de medula óssea feitos com doadores da família que são parcialmente compatíveis, chamados de haploidênticos, apresentam segurança e eficácia semelhantes aos realizados com doadores não relacionados que são totalmente compatíveis (MUD).
Os resultados foram divulgados durante o encontro anual da Sociedade Americana de Hematologia (ASH), realizado em Orlando, Flórida, entre os dias 6 e 9 de dezembro.
O estudo foi conduzido pelo Hospital Israelita Albert Einstein e pela Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO), com dados validados pelo Centro Internacional de Transplante de Medula Óssea (CIBMTR).
Diversas doenças do sangue, como leucemias, que afetam a medula óssea e os órgãos relacionados, podem ser curadas pelo transplante de células-tronco hematopoiéticas (TCTH), conhecido popularmente como transplante de medula óssea. No entanto, este procedimento necessita de um doador, preferencialmente 100% compatível.
Doadores com compatibilidade total, chamados MUD (Matched Unrelated Donor), são pessoas sem parentesco com o paciente, mas que possuem compatibilidade máxima genética e são encontrados em bancos de doadores.
Mariana Kerbauy, hematologista e especialista em transplante de medula do Hospital Israelita Albert Einstein, explica que a miscigenação étnica no Brasil dificulta encontrar doadores 100% compatíveis.
“Como o Brasil é um país muito miscigenado, encontrar um doador totalmente compatível no banco é difícil. Por isso, a possibilidade de realizar um transplante com alguém da família que seja metade compatível é muito importante, pois a maioria dos pacientes tem um parente com essa compatibilidade”, afirma.
Estudos internacionais já mostraram que transplantes com doadores parcialmente compatíveis funcionam tão bem quanto aqueles com doadores totalmente compatíveis.
Kerbauy destaca a necessidade de um estudo próprio no Brasil, devido às características locais, como a diversidade étnica e a prevalência de infecções como o citomegalovírus, Doença de Chagas e toxoplasmose, que podem influenciar os resultados.
O estudo analisou dados de 501 pacientes de 21 hospitais brasileiros que fizeram transplante de medula entre 2018 e 2021. Destes, 335 (66,8%) receberam transplante com doador parcialmente compatível (haplo) e 166 (33,2%) com doador totalmente compatível (MUD).
Os pacientes tinham 18 anos ou mais e apresentavam leucemia mieloide aguda (LMA) ou linfoblástica aguda (LLA) em remissão completa no momento do transplante.
Após um acompanhamento médio de 26 meses, não foram encontradas diferenças significativas na sobrevida, retorno da doença (recidiva) ou toxicidade entre os dois grupos de transplante.
“Assim, confirmamos que o transplante com doador parcialmente compatível é viável, eficaz e seguro”, conclui Kerbauy.

