MATHEUS DOS SANTOS E TAMARA NASSIF
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O Tesouro Nacional adquiriu R$ 12 bilhões em títulos prefixados e R$ 15,4 bilhões em títulos IPCA+ (vinculados à inflação) nesta segunda-feira (16), atuando no mercado para controlar a alta dos juros futuros.
A ação teve como objetivo reduzir o aumento das taxas de juros verificado nos últimos dias, motivado pela expectativa de que a taxa Selic possa diminuir mais lentamente do que o previsto. A pressão sobre a inflação causada pela alta do preço do petróleo devido ao conflito no Irã levou o Copom (Comitê de Política Monetária) a adotar uma postura mais cautelosa em relação à política de juros.
O Tesouro informou que essa intervenção visa garantir o bom funcionamento do mercado de títulos públicos e dos mercados relacionados.
Diversos bancos e corretoras já reduziram a expectativa de corte da taxa de juros na reunião do Copom desta semana.
Além das recompras, foram cancelados os leilões tradicionais de títulos prefixados e indexados à inflação que estavam marcados para os dias 17 e 18 de novembro. Segundo Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, essa ação demonstra que o Tesouro está atento à situação do mercado, e o leilão de recompra ajudou a aliviar a curva de juros.
No primeiro leilão, o Tesouro recomprou R$ 12 bilhões em títulos prefixados com vencimentos entre 2028 e 2032, com um limite de até 25 milhões de títulos. À tarde, foi realizado o segundo leilão, dessa vez para títulos atrelados à inflação, comprando até 10 milhões de títulos, totalizando R$ 15,4 bilhões.
Em ambos os casos, o volume comprado foi menor que o máximo anunciado. Após as operações, as taxas dos DIs para janeiro de 2028 e 2035 recuaram, e o dólar fechou o dia em queda, enquanto o Ibovespa subiu.
André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, explica que essa compra é uma ação temporária para acalmar o mercado, semelhante ao que foi feito em 2024 e durante a pandemia, e o cancelamento dos leilões ajuda a preservar a liquidez do Tesouro diante dos altos custos para renovar a dívida em taxas elevadas.
O mercado saudou a medida diante da alta do preço do petróleo, que atingiu US$ 100 o barril na semana anterior, aumentando o risco de um aumento inflacionário, especialmente em países que já estão cortando juros. Se o Fed, o banco central dos EUA, mudar a política para controlar a inflação, isso poderia enfraquecer economias emergentes devido ao fortalecimento do dólar e retirada de investimentos.
Esse cenário influencia a pressão sobre o Copom e a trajetória da Selic, refletida nas curvas de juros, principalmente em títulos com vencimento de 2027 a 2029.
Viviane Las Casas, chefe de renda fixa da Valor Investimentos, afirma que a oscilação das taxas impacta diretamente os títulos públicos. O preço dos contratos para 2028 subiu na sexta-feira e caiu na segunda-feira, mostrando essa instabilidade.
Ian Lima, gestor da Inter Asset, reforça que a intervenção do Tesouro era esperada e foi benéfica, pois a recompra da dívida a taxas atuais reduz o custo dos juros para o governo, beneficiando o contribuinte.
Luis Felipe Vital, estrategista da Warren Investimentos, também avalia positivamente o anúncio feito pela manhã, que ajudou a abrir negociações em alta. Ele destaca que o Tesouro focou em títulos até 2032 e IPCA+ até 2053, as partes da curva mais afetadas pela reprecificação devido ao conflito no Oriente Médio e às mudanças nas expectativas para a Selic.
Perspectivas
Economistas agora consideram que o Copom pode manter a taxa Selic em 15% na próxima reunião. O banco XP, em relatório, afirma que uma redução de 0,50 ponto percentual é improvável, e um ajuste menor ou a manutenção são mais plausíveis, dada a taxa elevada.
Já o BTG Pactual prevê um corte menor de 0,25 ponto percentual e uma abordagem cautelosa diante do choque recente no preço do petróleo e das incertezas sobre seu impacto futuro.
