LAIZ MENEZES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O Ministério da Saúde está testando entre fevereiro e março um novo tipo de insulina em quatro estados do Brasil: Amapá, Paraíba, Paraná e Distrito Federal. A ideia é trocar a insulina antiga, chamada NPH, que age por um tempo médio, pela insulina glargina, que é mais moderna e atua por mais tempo.
Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o plano é levar essa mudança para todo o país ainda este ano. A prioridade atual são crianças e adolescentes até 17 anos com diabetes tipo 1 e idosos com 80 anos ou mais com diabetes tipo 1 ou 2. Nessa primeira fase, cerca de 50 mil pessoas devem ser beneficiadas.
A escolha desse grupo foi feita em conjunto entre especialistas e gestores estaduais e municipais. Com o andamento do projeto, podem ser incluídas mais pessoas, especialmente com diabetes tipo 2, que é mais comum no Brasil.
As equipes de saúde estão sendo treinadas para prescrever, administrar e acompanhar o uso da insulina glargina, ensinando o uso das canetas para aplicação e oferecendo acompanhamento constante, como consultas e visitas domiciliares.
Para a endocrinologista Patrícia Moreira Gomes, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo, a diferença principal entre as insulinas está em como elas agem no corpo. A insulina NPH atua por menos tempo, precisando ser aplicada duas ou três vezes ao dia. Já a glargina dura cerca de 24 horas, sendo aplicada geralmente uma vez ao dia.
“A NPH tem um efeito que aumenta e depois diminui, podendo causar queda de açúcar no sangue. A glargina age de forma constante, reduzindo esse risco”, explica. Além disso, menos aplicações facilitam que as pessoas sigam o tratamento corretamente, trazendo mais conforto.
Essa troca também pode resultar em economia para o sistema público, pois menos aplicações significam menos agulhas usadas e menos risco de crises que exigem atendimento de emergência.
O ministério incorporou a insulina glargina no SUS em 2019, mas o medicamento só começará a ser distribuído em 2025, atrasado em relação aos planos iniciais. O atraso ocorreu devido ao custo, já que o medicamento precisava custar o mesmo ou menos que a NPH, e houve dificuldades em realizar compras públicas.
Alexandre Padilha destaca que a produção nacional é importante para garantir o abastecimento e reduzir a dependência do mercado externo, especialmente diante de uma crise mundial causada pela produção de outros medicamentos similares, as chamadas canetas emagrecedoras, que usam instalações parecidas.
O Brasil retomou a produção nacional da insulina após 20 anos, com acordos internacionais para transferência de tecnologia que permitem a produção por laboratórios públicos como a Fundação Ezequiel Dias em Minas Gerais e Bio Manguinhos no Ceará.
Entidades médicas têm alertado para problemas de falta de insulina desde 2023. Em 2025, houve relatos de falta em algumas regiões, mas o Ministério da Saúde afirma que no SUS nenhum paciente ficou sem acesso ao medicamento, graças a compras internacionais que amenizaram a crise.
Está previsto que em 2026 sejam produzidos 36 milhões de tubetes de insulina glargina, um grande aumento em relação aos 6 milhões recebidos em 2025. Parte da produção ainda é feita na China durante a fase de transição tecnológica.
A mudança da insulina NPH para a glargina faz parte de um grupo de trabalho criado em novembro de 2025. A endocrinologista Karla Melo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes, participou dessa equipe.
Ela ressalta que um desafio para expandir o uso da glargina é a disponibilidade de canetas reutilizáveis, necessárias para aplicar o medicamento. O projeto piloto está avaliando a entrega das insulinas, o treinamento dos profissionais e as orientações para os pacientes.
Apesar das dificuldades enfrentadas nos últimos anos, Karla Melo afirma que as faltas de insulina são geralmente pontuais e ligadas à logística entre estados e municípios, não havendo relatos recentes de problemas maiores.
