MAELI PRADO
FOLHAPRESS
A situação de superendividamento atual no Brasil diminui quase pela metade o efeito positivo que o aumento da renda das famílias tem sobre o consumo, conforme estudo do banco Daycoval.
O estudo revela que, quando as dívidas das famílias estão em níveis baixos, um crescimento de 1 ponto na massa salarial, que é a soma dos salários no país, eleva o consumo das famílias em 0,29 ponto percentual.
Porém, quando o endividamento está alto e compromete mais a renda, esse aumento no consumo cai para 0,17 ponto percentual, uma redução de aproximadamente 40% em comparação ao cenário anterior.
Os pesquisadores criaram um modelo econométrico para identificar em que momento o superendividamento começa a afetar negativamente o impacto da renda sobre o consumo.
O limite foi identificado quando o endividamento familiar ultrapassa cerca de 39% da renda. Esse indicador cresceu de 17% em 2005 para quase 50% em 2025, segundo o estudo.
“Quando o endividamento ultrapassa esse nível, a renda influencia menos o consumo, e o crédito para pessoa física passa a ser mais relevante”, explica Antonio Ricciardi, economista do Daycoval.
Se o superendividamento não existisse, o consumo das famílias, que subiu 7,8% desde 2023, teria crescido 3 pontos percentuais a mais, ou seja, 10,8%. Em 2025, o aumento do consumo poderia ser 3,6 pontos percentuais maior.
“Apesar do crescimento no mercado de trabalho e na renda, o consumo das famílias tem crescido de forma mais lenta. Essa constatação motivou nosso estudo”, destaca o economista-chefe do Daycoval, Rafael Cardoso.
O levantamento também analisou o impacto do crédito no consumo durante períodos de baixo e alto endividamento, mostrando que, em momentos de superendividamento, as famílias recorrem mais ao crédito para manter seu padrão de consumo.
O aumento do endividamento nas últimas duas décadas está relacionado principalmente à expansão do crédito imobiliário. “Entre 2010 e 2015, houve um boom no crédito habitacional, e após 2021 também observamos um forte aumento”, acrescenta Ricciardi.
Para o banco Daycoval, o futuro do endividamento familiar depende de medidas que permitam a redução das dívidas. “Com a queda dos juros, o custo do serviço da dívida tende a diminuir, porém isso não significa que o endividamento vai cair automaticamente. É necessário um conjunto de ações coordenadas”, conclui Ricciardi.

