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quinta-feira, 02/04/2026

Sistema dividido atrasa diagnóstico e dificulta vida de autistas, dizem especialistas

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Por João Roberto Delattre

Quando o diagnóstico do autismo demora, crianças e adolescentes perdem chances importantes, segundo especialistas. No dia 2 de abril, data dedicada à conscientização sobre o autismo, profissionais ressaltam a importância de combater o preconceito e de informar melhor sobre o tema.

Luciana Brites, pesquisadora que estuda o desenvolvimento do cérebro infantil, explica que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) pode se manifestar de formas variadas. Isso dificulta o diagnóstico, mas ele não precisa ser feito tarde.

Parte do problema está no fato de que saúde e educação funcionam separadamente, sem comunicação entre os profissionais que atendem a criança. Isso atrapalha o crescimento da criança, seu acesso a direitos e a qualidade de vida da família.

“No Brasil, a criança autista pode levar entre 2 a 4 anos para receber o diagnóstico depois dos primeiros sinais”, diz Luciana Brites.

Sem um diagnóstico oficial, benefícios como passe livre, BPC e adaptações na escola não são disponibilizados. Assim, a vida da criança fica parada, enquanto os pais enfrentam desgaste emocional, financeiro e organizacional, e a criança não tem o apoio necessário para se desenvolver.

Família

Ao receber o diagnóstico, os pais podem sentir tristeza pela perda da expectativa que tinham para o filho. É um momento difícil, mas também traz alívio, pois finalmente entendem o que está acontecendo.

Uma boa comunicação ajuda a aceitar o diagnóstico e a buscar tratamentos e estímulos precoces, que são essenciais para a criança progredir.

Famílias de crianças autistas geralmente vivem muito estresse e necessitam de apoio. Muitas vezes, é importante cuidar também dos cuidadores, já que eles podem enfrentar problemas emocionais e sociais por conta da situação.

A ABRACI, liderada por Lucinete Andrade, presta atendimento a pessoas autistas

Lucinete Ferreira de Andrade, conselheira tutelar e mãe de uma jovem autista que precisa de suporte intenso, afirma que como o autismo não é visível, muitas pessoas confundem o comportamento das crianças com falta de educação ou superdotação. Isso obriga as famílias a educarem a sociedade e as escolas sobre o transtorno.

“Além da deficiência que não é visível, enfrentamos uma sociedade que discrimina e julga a maternidade, dizendo que a criança é criada sem limites”, comenta Lucinete.

Escola

Alfabetizar crianças com TEA exige conhecimento aprofundado e materiais adequados. Cada criança pode ter necessidades diferentes, como dificuldades intelectuais ou de comunicação, que exigem métodos específicos.

Professores precisam de formação qualificada e programas estruturados para que a inclusão funcione. Sem isso, a inclusão fica apenas na aparência: a criança está na sala, mas não aprende de verdade.

As escolas não estão preparadas para incluir essas crianças adequadamente. Existem leis, mas não garantem formação contínua para os professores nem profissionais de apoio suficientes. A inclusão efetiva depende de uma rede que envolva família, saúde, assistência social e outros profissionais.

Diagnóstico tardio

Ellen Moraes, psicóloga especialista no assunto, explica que pessoas diagnosticadas na idade adulta sentem emoções misturadas, como alívio por entenderem o que têm, mas também revolta por terem vivido muito tempo sem explicação.

“A pessoa cresce sentindo que tem algo errado, sem saber o que é”, afirma Ellen.

Sem um diagnóstico, a pessoa pensa que o problema está nela mesma, acreditando que não se esforça o suficiente. Isso gera revolta contra os cuidadores e o ambiente, e sensação de não pertencimento.

Muitos autistas enfrentam espaços não preparados para suas necessidades e precisam esconder comportamentos para se encaixar. Isso causa desgaste emocional que perdura na vida adulta.

Sem intervenções precoces, o adulto autista pode ter saúde prejudicada, dificuldades no dia a dia e grande pressão para agir como pessoas neurotípicas, aumentando seu sofrimento.

Ofensas

Anna Rebeca Ekroth, assistente social diagnosticada com TEA aos 47 anos, conta que ouve frases ofensivas como “todo mundo é um pouco autista”.

Ela explica que isso é ofensivo e reforça preconceitos, pois autismo é uma condição real com desafios específicos.

Antes, autistas eram escondidos e excluídos. Hoje há mais visibilidade, mas é necessário avançar no respeito e na conscientização para acabar com o preconceito.

“Autistas têm direitos, capacidades e autonomia como qualquer outra pessoa”, diz Anna.

A inteligência não define o autismo. Pessoas autistas podem ser talentosas em áreas específicas, mas o transtorno não determina o nível intelectual.

Para incluir crianças com TEA, é preciso ações integradas de saúde, assistência social e educação. A escola é importante, mas não pode assumir sozinha essa responsabilidade, destacam as especialistas.

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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