O presidente da Argentina, Javier Milei, ainda não enviou felicitações a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pela sua reeleição. Essa ausência oficial prolonga a crise diplomática entre Brasil e Argentina, que já enfrentam um momento delicado após ataques do argentino ao presidente brasileiro e a autoridades brasileiras.
Lula venceu o segundo turno das eleições presidenciais com 51,79% dos votos válidos, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL), apoiado por Milei, teve 48,21%. Inicialmente, Flávio Bolsonaro anunciou que poderia contestar o resultado na Justiça Eleitoral, mas depois descartou essa possibilidade, optando por pedir a cassação da chapa de Lula e Geraldo Alckmin (PSB).
Segundo informações da Argentina, o governo de Milei chegou a preparar uma mensagem de congratulação, mas a iniciativa foi abandonada após questionamentos da campanha derrotada. O presidente argentino também compartilhou nas redes sociais publicações críticas a Lula e aos eleitores brasileiros.
O professor de relações internacionais Maurício Fronzaglia, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, avalia que o silêncio é uma escolha política, não uma falha de comunicação. Segundo ele, a decisão está ligada à polarização que ultrapassa fronteiras e afeta as relações internacionais. Para Maurício, trata-se de uma infantilização nas relações diplomáticas.
O clima tenso entre Brasil e Argentina já vinha de antes das eleições. Em julho, Milei atacou Lula e o ministro Alexandre de Moraes durante evento em São Paulo, o que levou o Itamaraty a chamar o embaixador argentino e retirar seu representante em Buenos Aires. Em agosto, as relações diplomáticas foram rebaixadas, e as embaixadas passaram a ser chefiadas por encarregados de negócios.
Além disso, pouco antes do segundo turno, Milei questionou a lisura das eleições brasileiras, causando uma reação firme do Itamaraty, que classificou as declarações como uma tentativa inaceitável de ingerência externa.
Para Maurício Fronzaglia, o silêncio de Milei tem impactos que vão além da relação pessoal dos presidentes. A derrota de Flávio Bolsonaro representa um revés para a influência de governos de direita na América Latina, com impacto nas ambições políticas do presidente argentino.
O especialista destaca que a tradição diplomática exige respeito às decisões eleitorais de países vizinhos, independentemente das divergências políticas. Assim, a ausência de congratulações aprofunda o distanciamento já existente e mantém as representações diplomáticas rebaixadas, enquanto os presidentes evitam encontros bilaterais em fóruns internacionais.
Apesar do clima político, as relações comerciais entre Brasil e Argentina continuam firmes. A integração industrial e a cadeia automotiva são pontos fortes que limitam os impactos da crise. Dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina indicam que o Brasil é o principal parceiro comercial do país, responsável por 12,7% das exportações argentinas e 21,4% das importações.
O comércio entre os países teve variações recentes, com aumento nas vendas argentinas ao Brasil e redução nas compras de produtos brasileiros pela Argentina. No entanto, não há indícios de que o silêncio de Milei tenha influenciado diretamente essas mudanças.
O risco reside na possibilidade de que a falta de diálogo político dificulte negociações futuras e a coordenação entre os governos, inclusive no âmbito do Mercosul. Ainda assim, de acordo com Maurício Fronzaglia, os interesses econômicos devem garantir a continuidade da cooperação entre os países.


