TAMARA NASSIF
FOLHAPRESS
Especialistas em investimentos estão divididos sobre a previsão para a taxa Selic no final de 2025. Enquanto a maioria do mercado espera que a Selic feche o ano em 12% ao ano, alguns economistas já discutem a possibilidade de a taxa ser menor.
Bruno Serra, ex-diretor de política monetária do Banco Central e gerente de portfólios do Itaú Asset Management, acredita que a Selic deve terminar em 11% ao ano, no mínimo. Essa posição foi apresentada em um evento do BTG Pactual e apoiada por Marco Freire, gestor de investimentos da Kinea, e Christiano Chadad, sócio e gestor do BTG Volt.
Serra baseia sua previsão em diversos dados econômicos atuais. Ele destaca que a inflação deve ficar em torno de 3% até outubro e fechar o ano em 3,5%, salvo mudanças significativas na política fiscal. O Produto Interno Bruto (PIB) está próximo do seu potencial, com crescimento de 2%, apoiado principalmente pelo agronegócio e setores de mineração, como Vale e Petrobras.
Ele explica que, excluindo essas áreas, o restante da economia está desacelerando, com potencial de inflação em 1,5%. O mercado de trabalho também está mais fraco, apesar dos salários ainda estarem elevados, mas deve haver queda conforme a inflação se estabilize. Atualmente, os juros estão em 15%.
Para Serra, esses fatores indicam que o Banco Central deve iniciar um ciclo de cortes mais acelerado na taxa Selic, especialmente pela inflação baixa e pela economia desacelerando. Ele afirma que o chamado “juro neutro”, que é a taxa real que mantém a economia estável, está em torno de 8,5%, e o mercado considera em 9,5%. Por isso, sugere que a Selic pode acabar o ano em 11% ou menos, e que no começo de 2027 o valor pode ser ainda menor.
Esse cenário pressupõe cortes consideráveis: uma redução de 0,5 ponto percentual em maio e outras duas de 0,75 ponto a partir de junho. Serra também alerta que o risco é a Selic ficar em 9% no final do ano, e não em 12%.
Chadad, do BTG, concorda com os cortes acelerados, principalmente antes das eleições presidenciais, dizendo que é incomum o país cortar juros durante o período eleitoral.
Ele enfatiza que essas previsões consideram a manutenção da atual política fiscal até o fim do ano. Se o governo aumentar os gastos, essa situação pode mudar, e futuros governos terão dificuldades para manter esse nível de gasto público.
Freire, da Kinea, critica as taxas altas. Ele compara o Brasil com outros países emergentes, que têm inflação similar, mas taxas de juros muito menores, como México e África do Sul.
Embora o Brasil tenha uma dívida maior, Freire acredita que instituições fortes ainda permitem uma taxa Selic menor do que 12%, que ele considera elevada.
No recente boletim Focus, poucos economistas já reduziram a previsão da Selic para o final do ano, de 12,25% para 12,13%. O Banco Central, no entanto, tem sido cauteloso para dar sinalizações claras sobre cortes da taxa.
Em evento no dia 11 de fevereiro, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou que a palavra-chave é “calibragem” e que o Banco Central seguirá dependendo dos dados para suas decisões, sem dar indicações adicionais neste momento.
Galípolo também negou mudanças na estratégia do BC e alertou que qualquer sinalização antes do tempo pode causar mais problemas do que soluções, citando o cenário de instabilidade global e as eleições brasileiras como fatores complicadores.
