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Brasília

Saúde do DF sangra entre mortes, sucateamento e escândalos — e Celina não pode fingir que chegou agora

Celina Leão diante da crise e do sucateamento da saúde pública do Distrito Federal
Foto: Joel Rodrigues/Agência Brasília

Governadora reconhece falta de médicos após três anos como vice de Ibaneis; investigações envolvendo contratos públicos e o passado da Operação Drácon reforçam a cobrança por transparência.

A crise da saúde pública do Distrito Federal deixou de ser apenas uma sucessão de reclamações sobre filas, falta de médicos e hospitais superlotados. Em julho de 2026, três mortes ocorridas em poucos dias colocaram novamente a rede pública sob suspeita de negligência.

Maria Graciana Andrade Alves, de 36 anos, e Maria Aparecida Galdino dos Santos, de 25, morreram após partos realizados no Hospital Regional de Samambaia. Rodrigo Resende Prado, de 46 anos, morreu na entrada do Hospital de Base enquanto aguardava atendimento. As famílias apontaram possíveis falhas, e os casos passaram a ser investigados pelas autoridades. Até o momento, não há conclusão definitiva que permita responsabilizar individualmente profissionais ou gestores.

Diante da repercussão, Celina Leão reconheceu publicamente o déficit de médicos e o sucateamento da rede. A governadora anunciou a convocação de profissionais e mudanças nos protocolos de atendimento. O reconhecimento, porém, chegou tarde para uma política que ocupou a Vice-Governadoria desde janeiro de 2023 e participou do mesmo projeto administrativo responsável pela saúde do DF.

O problema é antigo e já estava documentado

Uma auditoria do Tribunal de Contas do Distrito Federal divulgada em 2024 constatou problemas de infraestrutura em mais de 85% das unidades básicas fiscalizadas. Foram encontradas infiltrações, pisos danificados, medicamentos armazenados de maneira inadequada, falta de acessibilidade e unidades funcionando em espaços improvisados.

Em agosto de 2025, o Ministério Público abriu procedimento para investigar denúncias envolvendo a morte de pelo menos três bebês no Hospital Regional de Samambaia, após supostas negativas de assistência a gestantes. O mesmo hospital voltou ao centro da crise em 2026 com a morte de duas mulheres após o parto.

O Ministério Público também cobrou diretamente de Ibaneis Rocha e Celina Leão, ainda em 2025, uma decisão política para aumentar o número de servidores e destinar mais recursos à saúde. Portanto, não se pode alegar desconhecimento.

Contratos milionários e suspeitas de corrupção

A precariedade do atendimento convive com contratos de valores expressivos e sucessivos problemas apontados pelos órgãos de controle.

Em junho de 2026, o TCDF determinou que a Real Sociedade Espanhola de Beneficência devolvesse R$ 54,7 milhões referentes à gestão do Hospital Regional de Santa Maria. A fiscalização identificou pagamentos indevidos, despesas sem previsão contratual e falhas na comprovação do uso dos recursos. A decisão ainda admite recurso.

O Iges-DF também foi alvo de operação do MPDFT e da Polícia Civil por suspeitas relacionadas ao contrato de alimentação das unidades administradas pelo instituto. O aditivo investigado ultrapassava R$ 136 milhões.

Em outro desdobramento, a Justiça tornou réus um ex-servidor público e um empresário. Segundo a denúncia, teria sido oferecida vantagem indevida de R$ 265 mil para beneficiar a empresa Salutar. Os acusados ainda não foram julgados definitivamente, e as investigações não apontam participação pessoal de Celina nesses contratos.

Celina foi vice, não espectadora

Celina tenta apresentar as dificuldades atuais como uma herança recebida. Politicamente, esse discurso é frágil. Ela foi vice-governadora durante mais de três anos, chegou a comandar interinamente o Distrito Federal em 2023 e não rompeu publicamente com a condução da saúde pelo governo Ibaneis.

Não há prova de que Celina tenha sido “vendida pelo cargo”. O que os fatos permitem questionar é se a conveniência política falou mais alto do que o dever de enfrentar uma crise já conhecida. Seu silêncio não foi absoluto, mas faltou uma posição firme, pública e proporcional à gravidade dos problemas. Quando se manifestou em 2024, chegou a atribuir parte da crise ao atendimento de moradores do Entorno, em vez de assumir integralmente a responsabilidade administrativa.

Agora, como governadora e candidata à continuidade do projeto, Celina não pode tratar a própria gestão como se fosse oposição ao governo anterior. A saúde pública deteriorou-se enquanto ela integrava o comando do GDF.

O passado que exige transparência

A cobrança ganha peso diante do histórico da Operação Drácon. Celina, Júlio Cesar Ribeiro, Cristiano Araújo e Bispo Renato Andrade foram acusados pelo MPDFT de negociar vantagens indevidas relacionadas a emendas destinadas à contratação de leitos de UTI entre 2015 e 2016.

Celina e os demais acusados foram absolvidos na esfera criminal, em primeira instância, por falta de provas suficientes. Entretanto, a ação de improbidade administrativa continuava em tramitação, sem julgamento definitivo do mérito. Esse esclarecimento é indispensável: investigação não significa condenação, mas o histórico impõe à governadora uma obrigação ainda maior de transparência.

O DF não precisa apenas de novos anúncios, promessas de hospitais ou contratações apresentadas durante a campanha eleitoral. Precisa de cronogramas verificáveis, divulgação das investigações, responsabilização por falhas comprovadas e explicações detalhadas sobre o destino dos recursos.

Quando pessoas morrem aguardando atendimento, o problema deixa de ser exclusivamente administrativo. Torna-se uma questão de responsabilidade política. E essa responsabilidade também pertence a quem, durante anos, ocupou o segundo cargo mais importante do governo e escolheu permanecer ao lado do poder.

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