Horas após militares anunciarem a derrubada do presidente do Benim, Patrice Talon, forças leais ao governo conseguiram frustrar o que seria o terceiro golpe de Estado no continente africano em 2025. Diferente do ocorrido em países vizinhos, houve uma resposta rápida tanto interna quanto de aliados internacionais do país da África Ocidental.
Além dos militares fiéis a Talon, a reação contra os golpistas contou com o apoio da Nigéria e da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que enviaram tropas para conter a tentativa de tomada de poder no Benim.
Mesmo com o controle da situação, a CEDEAO acendeu um sinal de alerta. Dias após a tentativa de golpe, o presidente do bloco, Omar Touray, instaurou estado de urgência regional. Para justificar tal medida, o diplomata da Gâmbia apontou os recentes golpes e tentativas militares de derrubar governos como fatores que causaram retrocessos democráticos na região.
Nove golpes desde 2020
Entre 2020 e 2025, Mali, Chade, Guiné, Sudão, Burkina Faso, Níger, Gabão, Madagascar e Guiné-Bissau sofreram golpes militares bem-sucedidos. O mais recente ocorreu em Guiné-Bissau, quando uma junta militar suspendeu o processo eleitoral, em meio a uma disputa entre o presidente Umaro Sissoco Embaló e o opositor Fernando Dias da Costa.
O grupo militar alegou impedir um plano para desestabilizar o país e afirmou defender a democracia local. O presidente deposto exilou-se no Senegal e, mesmo com a formação de um governo de transição, analistas suspeitam de um golpe planejado, apontando que a equipe transicional tem ligações com o ex-presidente.
Militares em Guiné-Bissau justificaram as medidas com ameaças à estabilidade e democracia, argumento semelhante aos usados em golpes no território africano.
Temas como segurança e economia também motivaram mudanças de poder. Segundo Anselmo Otavio, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), muitos golpes aconteceram no período pós-covid, quando a pandemia provocou grandes danos populacionais e econômicos. A fragilidade econômica resultou em insatisfação da população, que buscava soluções não atendidas pelos governos, abrindo espaço para golpes militares.
Mudança de alianças internacionais
Dos nove golpes, cinco ocorreram em países da África Ocidental (Mali, Guiné, Burkina Faso, Níger e Guiné-Bissau), e três deles compartilharam um fenômeno: mudanças internas e reformulação das alianças exteriores.
Governos antes alinhados ao Ocidente foram derrubados, e Burkina Faso, Mali e Níger abandonaram antigas relações com a França, fortalecendo, em contraste, laços com a Rússia, liderada por Vladimir Putin.
Essa mudança buscou alternativas para problemas locais, inclusive a crise do terrorismo causada pela migração de grupos jihadistas do Oriente Médio para a África. Enquanto isso, tropas francesas foram expulsas de vários países africanos.
Outro ponto crucial foi a criação da Aliança dos Estados do Sahel (AES) em setembro de 2023, pacto de defesa mútua entre Burkina Faso, Mali e Níger, emergindo como resposta à ameaça de intervenção militar da CEDEAO no Níger após o golpe contra o presidente Mohamed Bazoum.
Anselmo Otavio explica que os países afetados pelos golpes foram isolados pela União Africana, mas pouco se importaram, formando a AES como um desafio direto à CEDEAO e à estabilidade regional.
