ARTUR BÚRIGO
BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS)
Os resíduos da barragem da mina Córrego do Feijão, da Vale, que se rompeu há sete anos, se espalharam por pelo menos 2,4 mil hectares devido às enchentes que afetaram cidades próximas a Brumadinho (MG) em 2020 e 2022.
Esta conclusão veio de um estudo feito pelo Nacab (Núcleo de Assessoria às Comunidades Atingidas por Barragens).
Utilizando imagens de satélite públicas, os pesquisadores identificaram um aumento de óxido de ferro, perda de vegetação e maior concentração de argila nas áreas afetadas pelas enchentes.
O rio Paraopeba, que sofreu transbordamento com as cheias, é o local mais afetado pelos rejeitos da barragem.
O estudo, que está em fase avançada de avaliação para publicação na revista Remote Sensing Applications Society and Environment, é um pré-print disponível na página da revista.
A pesquisa focou na região do médio Paraopeba, abrangendo dez municípios onde o Nacab atua.
Hugo Salis, engenheiro florestal e coautor da pesquisa, explicou que cada elemento na superfície tem uma assinatura digital de luz refletida, aplicável a materiais como argila e ferro presentes nos rejeitos.
O estudo procurou identificar quatro tipos de anomalias na área de enchentes: alta presença de argila, redução da vegetação e dois tipos de ferro, que indicam a presença dos rejeitos.
Quando as quatro anomalias ocorrem juntas nas imagens, indicam a maior evidência dos resíduos, correspondendo a 2.442 hectares, ou 17,1% da área inundada analisada.
A estimativa é conservadora, podendo haver rejeitos em áreas com duas ou três anomalias também, o que representa até 50% e 40% da área de inundação, respectivamente.
Gleuza Jesué, diretora de reparação da Vale, informou que antes do rompimento já existia a presença de metais pesados no rio Paraopeba, causada pelo descarte ilegal de resíduos industriais e sanitários, que eram levados para as margens em épocas de enxurradas.
Ela declarou que o rejeito da mineradora é inerte e não tóxico, com todos os seus componentes abaixo dos padrões legais.
A Vale também comunicou que, após as enchentes de 2022, empresas especializadas realizaram mais de 2.000 análises em cerca de 100 amostras do rio Paraopeba, constatando que os sedimentos não apresentam similaridade com os rejeitos da barragem.
O estudo apontou uma “zona de anomalias”, inundada nas cheias de 2020 e 2022, e comparou os resultados com a “zona quente”, área de 290 hectares próxima à barragem rompida, que serve como referência para as características dos rejeitos puros.
Também foi considerada uma área testemunho, localizada antes do local do rompimento, mantendo as características originais da região antes de 2019.
Gráficos mostram que as características espectrais da zona de anomalias e da área testemunho eram similares até antes do rompimento. A partir de 2020, a zona inundada passou a se parecer com a zona quente em suas características.
A produtora rural Mona Lisa Cardoso, 63 anos, de Paraopeba, a cerca de 127 km de Brumadinho, relatou que a enchente de 2020 trouxe resíduos com cheiro forte que danificaram sua plantação e deixaram o solo pesado e pouco drenável.
Ela contou que a enchente de 2022 causou problemas semelhantes, e que grande parte de suas terras está contaminada, sendo que apenas áreas restritas são seguras para o gado.
Antes do rompimento, Mona Lisa cultivava milho, abóbora e feijão, mas hoje só cria gado devido à contaminação das terras.
Ela depende do fornecimento de silo e água da Vale para sustentar seu gado, e teme perder essa ajuda.
A gerente de reparação da Vale informou que a empresa continuará fornecendo insumos até que o rio Paraopeba possa ser usado novamente para atividades agrícolas, decisão que cabe aos órgãos ambientais de Minas Gerais.
