FELIPE MEDEIROS E ADRIANA AMÂNCIO
BOA VISTA, RR E RECIFE, PE (FOLHAPRESS)
Roraima foi o estado com maior número de incêndios no Brasil durante o mês de março, respondendo por mais de um terço dos focos de queimadas em todo o país. Foram contados 602 casos, conforme dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Bahia e Mato Grosso aparecem em seguida, com 15% e 8% das ocorrências, respectivamente.
Nos meses anteriores, Roraima já havia registrado 219 focos em janeiro e 493 em fevereiro, um aumento significativo acima da média esperada para o período.
Nas últimas semanas, as chuvas começaram a cair na região, o que pode ajudar no controle dos incêndios.
Ramon Alves, meteorologista da Femarh (Fundação Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos), informa que o período chuvoso amazônico começa em abril, e isso deve reduzir os focos de incêndio.
O pico das queimadas aconteceu entre o final de fevereiro e meados de março, atingindo tanto áreas de savana quanto florestas próximas a regiões urbanas e rurais, causando fumaça tóxica e problemas respiratórios aumentados.
O governo estadual suspendeu a autorização para queimadas controladas em áreas rurais e estabeleceu multas para quem iniciar fogo sem permissão da Femarh.
Anderson Carvalho de Matos, comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar de Roraima (CBMRR), afirma que já foram registrados 1600 focos de incêndios principalmente nos municípios de Caracaraí, Rorainópolis e Normandia durante o ciclo 2025/2026.
Ele destacou que os incêndios têm origem humana, tanto criminosa quanto acidental. Nas cidades, o fogo é usado para limpar terrenos baldios, enquanto no campo serve para preparar áreas para plantio.
O clima seco e quente entre outubro e março contribui para o aumento das queimadas, com temperaturas elevadas e vegetação ressecada.
Desde novembro de 2025, a Operação Sem Fogo reúne bombeiros, brigadistas e integrantes do governo federal para combater e prevenir incêndios em Roraima, com ações preventivas em quase todos os municípios e combate ativo com centenas de profissionais.
CASA PERTO DO FOGO
Suerlene de Abreu Fuhrmann, autônoma de 58 anos, relata medo ao ver o fogo se aproximar de sua casa e da neta pequena na capital Boa Vista. A situação se repetiu em vários locais do estado, com pessoas assustadas e casas ameaçadas pelas chamas.
Bombeiros informam que parte do problema está ligada a práticas antigas, como queimar lixo, que facilitam a propagação do fogo.
SAVANA AMEAÇADA
Haron Xaud, pesquisador da Embrapa e professor da Universidade Federal Rural de Roraima, explica que as queimadas nas florestas não têm duração prolongada, e que a chegada da estação chuvosa deve evitar que fiquem mais graves.
No entanto, a savana e áreas de lavrado próximas a zonas urbanas queimaram intensamente, especialmente na região de Boa Vista, causando grande impacto na vida animal e prejudicando a qualidade do solo para a agricultura e pecuária.
FUMAÇA DENTRO E FORA DE CASA
Moradores da capital convivem diariamente com o cheiro forte de queimado e fuligem na atmosfera, o que afeta a qualidade de vida.
Amanda Souza, servidora pública de 36 anos, mudou-se para uma área verde, mas encontrou o ambiente tomado pelo fogo e fumaça, percebendo o problema até em sua casa. Ela relata que a fumaça persiste mesmo após as chamas sumirem, deixando o ambiente cinzento e sujo constantemente.
Os efeitos da poluição são sentidos nos hospitais locais, como o Hospital da Criança Santo Antônio, onde o pequeno Estevão, de um ano, ficou internado devido a problemas respiratórios agravados pela fumaça. A mãe, Angela Silva Pinheiro, conta que a casa ficou completamente cinza, como se estivessem no meio da fumaça.
A médica Mayara Floss, da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, alerta que as partículas finas liberadas pelas queimadas são extremamente pequenas e podem penetrar profundamente no corpo, aumentando o risco de doenças respiratórias, infartos, AVCs e câncer. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com condições de saúde existentes são os mais vulneráveis.

