Organizações de direitos humanos denunciaram na quinta-feira (8/1) que as forças de segurança do Irã dispararam contra manifestantes, com relatos de múltiplas mortes em várias regiões do país.
Os protestos começaram no mês passado em Teerã motivados pelas dificuldades econômicas da população e a forte desvalorização do rial. A crise econômica piorou após anos de sanções internacionais e o país ainda se recupera dos conflitos com Israel em junho.
Originados pelo fechamento de um mercado popular em Teerã no final de dezembro, após a queda histórica da moeda, os protestos se espalharam pelo território iraniano, questionando a autoridade do governo islâmico.
A agência Human Rights Activists News Agency (Hrana), com sede nos EUA, registrou manifestações em 348 localidades das 31 províncias iranianas.
Imagens verificadas pela AFP mostram grande concentração na avenida Aiatolá Kashani, em Teerã. Comércios fecharam em Tabriz e Bandar Abbas, centros econômicos importantes, conforme vídeos divulgados por ONGs e ativistas.
Estes são os maiores protestos desde as manifestações de 2022-2023, desencadeadas pela morte de Mahsa Amini sob custódia policial, após suposta violação do código de vestimenta para mulheres.
Repressão violenta e mortes
A ONG Iran Human Rights (IHR) relatou que pelo menos 45 manifestantes, incluindo oito menores, foram mortos pelas forças de segurança. A quarta-feira foi considerada o dia mais sangrento até agora, com 13 mortes confirmadas.
O diretor da IHR, Mahmood Amiry-Moghaddam, afirmou que a repressão se intensifica a cada dia, gerando centenas de feridos e mais de 2.000 prisões.
“A ONU e a comunidade internacional devem agir para impedir o assassinato em massa de manifestantes”, pediu o diretor.
Vídeos publicados pela Hrana mostram seguranças disparando contra manifestantes em Kermanshah. Grupos de direitos humanos reportaram invasões a hospitais para capturar manifestantes feridos.
A ONG Anistia Internacional acusou o governo de usar força ilegal tanto contra manifestantes quanto contra civis.
Na quarta-feira, um policial foi esfaqueado a oeste de Teerã durante esforços para conter os protestos, segundo agência Fars, ligada à Guarda Revolucionária.
Autoridades reagem e tensão internacional
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, pediu que as forças de segurança distingam manifestantes legítimos de desordeiros, defendendo contenção.
A porta-voz Fatemeh Mohajerani chamou os manifestantes de “nossos filhos” e defendeu o diálogo. Já o presidente do Judiciário, Gholamhosein Mohseni Ejei, prometeu dureza contra os que colaboram com inimigos do país, acusando EUA e Israel de tentar desestabilizar o Irã.
O ex-presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou reação dura caso autoridades iranianas comecem a matar pessoas.
O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, condenou o uso excessivo da força contra os manifestantes.
Apagão na internet
A organização Netblocks informou que o Irã enfrenta um apagão nacional da internet, com queda de cerca de 90% no tráfego da web, restringindo a circulação de informações para fora do país.
Apagões semelhantes ocorreram durante os protestos nos anos anteriores. Reza Pahlavi, figura da oposição no exílio, convocou protestos para 8 de janeiro e afirmou que o corte da internet visa impedir a divulgação dos eventos.
