Por Rogério Pagnan
FolhaPress
O Ministério Público de São Paulo apresentou uma denúncia contra quatro policiais militares, acusando-os de participar de uma organização criminosa que fazia a segurança particular para dirigentes, familiares e garagens da Transwolff, empresa de ônibus sob investigação por possível lavagem de dinheiro ligada ao PCC.
A denúncia, entregue à Justiça Militar, também requer a prisão preventiva do tenente-coronel José Henrique Martins Flores, que é apontado como responsável por administrar empresas usadas para formalizar os serviços de segurança e legitimar os pagamentos.
Os outros três acusados — o capitão Alexandre Paulino Vieira, o sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário e o sargento reformado Nereu Aparecido Alves — estão detidos desde 4 de fevereiro, após a Corregedoria da PM lançar a Operação Kratos.
A promotoria solicitou a manutenção das prisões, aguardando a aceitação da denúncia pela Justiça.
Os advogados de Paulino dizem que ele jamais participou ou prestou serviço para organização criminosa, e que administrava serviços de segurança por meio de empresa regular. A defesa de Nereu declarou surpresa com a denúncia e contestou as acusações, especialmente a de lavagem de dinheiro, ressaltando que os documentos indicam que o dinheiro apreendido é de origem legítima, pertencente ao empresário Ricardo Barnabé, para quem Nereu trabalha como segurança. Eles confiam que no processo será provada a inocência dele.
A promotoria afirma que os policiais protegiam o ex-dono da Transwolff, Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como Pandora, Cícero de Oliveira, chamado de Té, outros dirigentes, familiares e a sede da empresa.
Ao contratar policiais, dentre eles da tropa de elite Rota, a Transwolff não buscava só vigilância, mas também a reputação associada à PM para proteção, o que a promotoria chama de “blindagem reputacional”.
Os promotores dizem que os policiais integravam uma estrutura empresarial e financeira ligada a Pandora, Té e Robson Flares Lopes Pontes, todos acusados em outro processo por uso da Transwolff para ocultar recursos do PCC, o que a empresa e defensores negam.
O tenente-coronel Flores é acusado de fornecer suporte empresarial e fiscal para os pagamentos, sendo administrador de empresas registradas em nome de sua mãe e padrasto em Fernandópolis, distante da sede das companhias. Sua mãe confirmou que ele gerenciava a empresa AM3 junto ao gestor formal.
Flores também teria pedido a emissão de notas fiscais e apresentado o capitão Paulino ao administrador da empresa.
Além de organização criminosa, Flores e Paulino foram denunciados por exercício ilegal de comércio por oficial da PM, crime previsto no Código Penal Militar. Flores permanece na ativa.
O pedido de prisão de Flores se baseia no risco de interferência em provas, dada sua influência sobre familiares, policiais e funcionários. Um celular e computador apreendidos aguardam perícia.
Paulino é apontado como elo central, responsável por contratar policiais, definir escalas e pagamentos, e decidir admissões e dispensas. Ele disse ter conhecido Té e Pandora em visitas dos empresários ao gabinete do então presidente da Câmara Municipal, Milton Leite (União Brasil). Leite negou envolvimento.
Mensagens citadas pela promotoria mostram Paulino tratando Té e Pandora como chefes e organizando rondas nas garagens.
Romano é acusado de escoltas, trabalhar nas garagens e recrutar policiais. Em 2020, ele consultou nomes ligados à Transwolff e ao PCC, e após a Operação Sharks a rota ordenou que policiais se afastassem da empresa. Romano deixou a tropa de elite para continuar no serviço privado.
“Depois de 27 anos dedicados, não serviria mais para aquela unidade e pedi transferência; estou decidido a ficar com vocês,” escreveu ele a Cícero.
Nereu é acusado de atuar como segurança, motorista e responsável pela distribuição de dinheiro, sendo denunciado também por lavagem de dinheiro. Em sua casa, a Corregedoria apreendeu uma mala com R$ 1,18 milhão em espécie.
Nereu disse que o dinheiro pertencia a Ricardo Barnabé, para quem trabalhava, e que havia buscado a mala um dia antes da operação. Barnabé confirmou a propriedade dos recursos e prometeu apresentar documentos para comprovar a origem.
A promotoria questiona por que Nereu guardava o dinheiro em sua casa, organizado em maços e dentro de uma mala.
A investigação contra outros policiais que prestaram serviços eventuais para a Transwolff foi arquivada por falta de indícios suficientes que demonstrem participação em organização criminosa.
A Transwolff repudiou qualquer ligação com organizações criminosas e negou vínculos ilícitos de seus representantes ou policiais associados.
