Leandro Machado
Folhapress
Imagine um túnel para pedestres na Avenida Paulista ou áreas verdes com bancos e coretos no Parque Dom Pedro 2º. Pense em restaurantes ao ar livre, bicicletários e exposições de esculturas nas ruas da Luz. Além da São Paulo que conhecemos hoje, há uma cidade imaginada por arquitetos e gestores públicos, com projetos detalhados que nunca saíram do papel – uma metrópole que poderia ter existido, mas não aconteceu.
Marcos Gomes, 55 anos, bibliotecário da SP Urbanismo, conta que muitas ideias ficaram guardadas por décadas, sendo abandonadas e depois relembradas em novos planos com prefeitos diferentes. Ele cuida do acervo da companhia no 15º andar do Edifício Martinelli, no centro da cidade.
O túnel para pedestres na Paulista, por exemplo, surgiu em 1972 durante a gestão do prefeito Figueiredo de Ferraz e se manteve como ideia até o final dos anos 1980, mesmo com a inauguração do metrô. Acreditava-se que ajudaria a melhorar o fluxo de pedestres na via. Embora o túnel completo não tenha sido construído, um pequeno trecho chamado “Passagem Literária”, na esquina entre a Paulista e a Rua da Consolação, foi feito e hoje abriga um sebo e uma galeria de arte.
O Parque Dom Pedro 2º engolido pela cidade
No século 20, com o crescimento da população e expansão urbana, o centro de São Paulo se tornou um espaço para arquitetos, inclusive estrangeiros, planejarem a cidade do futuro.
Um exemplo emblemático é a área do Parque Dom Pedro 2º, inaugurado em 1922 em comemoração ao centenário da Independência, mas desativado na década seguinte. O projeto foi impulsionado por Antônio Prado, primeiro prefeito de São Paulo e membro da elite cafeeira. A intenção era transformar a várzea do rio Tamanduateí, então associada a sujeira e doenças, em um espaço limpo e organizado para a elite econômica.
O paisagista francês Antoine Bouvard, conhecido por sua colaboração na Torre Eiffel e em planos urbanísticos de Buenos Aires, elaborou o parque com um desenho inspirado nos parques parisienses, com caminhos sinuosos para pedestres, coretos, muitos bancos e vegetação para lazer.
O parque também foi pensado para ser permeável, evitando alagamentos quando o rio Tamanduateí subia e permitindo o acesso das pessoas quando as águas baixavam. Entretanto, com a canalização do rio e a construção das avenidas principais projetadas pelo engenheiro Francisco Prestes Maia, que também foi prefeito, o parque foi tomado pelas vias para automóveis, deixando pouco espaço para pedestres.
Hoje, quase cem anos após o fim do parque, a administração do prefeito Ricardo Nunes retomou algumas ideias com um projeto de revitalização que prevê parcerias público-privadas para melhorar acessos ao terminal de ônibus, conservar água da chuva e instalar áreas verdes e equipamentos de lazer. O investimento previsto é de R$ 717 milhões, sendo R$ 435 milhões públicos. O projeto aguarda assinatura de contrato com a empresa vencedora, Zetta Infraestrutura e Participações.
Revitalização da região da Luz
A região da Luz, no centro da cidade, também tem sido foco de vários projetos urbanos, especialmente após a ocupação da cracolândia nos anos 1990.
Em 2011, o então prefeito Gilberto Kassab lançou o projeto Nova Luz, que visava revitalizar a área por meio da iniciativa privada. A proposta incluía a desapropriação e reconstrução de imóveis, construção de um boulevard com esculturas, bicicletários em todas as quadras, jardins de chuva para drenagem e aumento substancial da cobertura vegetal. O custo estimado era de R$ 4 bilhões.
Porém, em 2013, o prefeito Fernando Haddad suspendeu o projeto, alegando que o custo para o município seria alto, cerca de R$ 2 bilhões, e que comerciantes locais, não ouvidos na elaboração do plano, poderiam ser prejudicados. Segundo a professora de arquitetura Nadia Somekh, a decisão evitou a expulsão de clientes e comerciantes importantes para a cidade.
Desde então, embora diferentes mandatos tenham decretado o fim da cracolândia, usuários ainda ocupam as ruas da Luz e arredores. Novos projetos para revitalização da área foram anunciados nos últimos anos, incluindo uma nova sede do governo paulista, espaços de convivência e linhas de VLT, mas sem previsão para sua realização.
