GABRIELLA FRANCO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Os preços de corridas em aplicativos de transporte que mudam constantemente vêm gerando dúvidas entre os usuários.
Empresas como Uber e 99 explicam que essas mudanças rápidas nos preços acontecem devido ao aumento da procura. No entanto, especialistas apontam que não há transparência sobre como os valores são definidos, o que pode levar a abusos, já que os consumidores não têm acesso às informações que determinam o valor final.
Segundo as empresas, o preço variável é calculado com base em fatores como clima, trânsito, eventos especiais e até o histórico do usuário no app. Um sistema de inteligência artificial usa esses dados para definir, em tempo real, o valor máximo que o passageiro estaria disposto a pagar.
Uber e 99 afirmam que os preços mais altos seguem a lógica de oferta e demanda e ajudam a atrair mais motoristas. Além disso, dizem que os usuários são avisados quando os preços estão acima do normal e podem escolher pagar esse valor ou esperar por uma tarifa menor.
Para Beatriz Kira, professora de direito na Universidade de Sussex e doutora em direito econômico pela USP, a questão vai além da simples variação de preços entre oferta e demanda.
“O problema principal é a falta de clareza sobre o que determina o preço. Isso não acontece em mercados tradicionais, onde os preços não são definidos individualmente”, explica.
A 99 informou que o preço final da corrida considera a distância, o tempo do trajeto e a oferta e demanda de motoristas na região. Eles ressaltam que condições como trânsito intenso, chuva ou aumento repentino de pedidos podem influenciar o valor.
A Uber comentou que leva a transparência a sério e que os preços são calculados com base na localização, horário e demanda, não utilizando dados pessoais ou do comportamento do cliente. A empresa também disse que o valor das viagens varia conforme a oferta de motoristas e procura em tempo real.
Contudo, as empresas não detalham quais critérios são usados nos algoritmos que definem as tarifas.
Embora o custo dos transportes por aplicativo tenha subido muito — em 2025 acumulou inflação de 56,08% no Brasil segundo o IPCA —, usuários relatam aumentos repentinos sem explicação clara.
A Uber enfrenta processos nos EUA e Reino Unido sobre o uso de dados pessoais para definir os valores pagos aos motoristas. Em novembro de 2025, a fundação Worker Info Exchange acusou a empresa de violar leis europeias ao usar algoritmos com informações pessoais para calcular a remuneração.
No Brasil, a Uber foi solicitada pelos Procons de São Paulo e Rio de Janeiro para explicar aumentos bruscos nas tarifas, quando passageiros afirmaram que corridas chegaram a custar até três vezes mais que o usual.
Nos materiais divulgados, a Uber explica que coleta dados como localização, distância, oferta de motoristas, trânsito e histórico de viagens para calcular preços e repasses automaticamente.
O preço variável entra em ação quando a demanda por motoristas é maior que a oferta em uma região, incentivando mais condutores a aceitar corridas e equilibrando o mercado.
Mas motoristas dizem que o aumento no valor pago pelo passageiro nem sempre corresponde a um maior ganho para eles. Muitos relatam dificuldade em entender qual parte do valor fica para a plataforma e qual é repassada, descrevendo essa divisão como instável e confusa.
“Antes, a taxa da plataforma era fixa: 25% para ela e 75% para o motorista. Agora parece aleatório, e já vi a Uber ficar com 40% do valor da corrida”, afirma um motorista com mais de nove anos de experiência. Ele só consegue comparar os valores pagos pelos passageiros com o que recebe mensalmente no extrato que a Uber fornece.
O Código de Defesa do Consumidor (CDC) proíbe aumentar preços sem motivo justo, mesmo que não mencione diretamente a precificação dinâmica com IA.
Marina Fernandes, pesquisadora do programa de Telecomunicações e Direitos Digitais do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor), destaca que a falta de informações adequadas deixa o consumidor, parte mais vulnerável na relação, ainda mais exposto a abusos.
Ela cita o artigo 39 do CDC, que proíbe práticas enganosas e abusivas contra consumidores, afirmando que a precificação dinâmica pode ser considerada abusiva por testar até onde o usuário aceita pagar mais pelo serviço.
Além disso, o uso não supervisionado de inteligência artificial pode reforçar discriminações sociais e econômicas. “O uso de algoritmos para definir preços, sem clareza sobre os dados usados, aumenta o risco de perpetuar desigualdades e prejudicar grupos vulneráveis”, alerta.
Lilian Marques, economista-chefe do Departamento de Estudos Econômicos do Cade, explica que algoritmos podem criar um tipo de discriminação de preços, onde o vendedor cobra o máximo que cada cliente está disposto a pagar, maximizando lucros.
Em mercados concentrados como o de transporte por aplicativo, a personalização dos preços pode aumentar práticas que prejudicam a concorrência, diz Beatriz Kira. “Com pouca concorrência, as escolhas do consumidor não são totalmente livres, e preço, qualidade e variedade deixam de ser reais opções competitivas.”
Ela destaca a importância do Projeto de Lei 4.675/2025, que visa regular mercados digitais, exigindo maior transparência na formação dos preços por empresas com relevância sistêmica.
