Por Ágata Vaz e Maria Clara Batista
O Quilombo Mesquita, na Cidade Ocidental, Goiás, tem mantido hábitos agrícolas antigos e sustentáveis no Cerrado por quase 280 anos. Mas o crescimento rápido das monoculturas na área ameaça o meio ambiente e a economia local.
Uso de agrotóxicos
A pesquisadora Antonia Ribeiro, que tem doutorado em educação ambiental, descobriu que os córregos próximos estão contaminados por agrotóxicos e fertilizantes usados nas fazendas vizinhas. Isso prejudica a conservação das águas e a sobrevivência das famílias quilombolas.
Ela também diz que a retirada de água por poços de propriedades não quilombolas faz baixar o nível do lençol freático, o que pode acabar com nascentes.
Mudanças na agricultura
A engenheira agrônoma Danusa Lisboa, que mora no Quilombo, conta que a pressão sobre a terra mudou bastante a agricultura local.
A comunidade teve que parar de usar sementes tradicionais crioulas porque as pragas aumentaram, principalmente por causa das plantações de soja próximas que atraem esses insetos prejudiciais.
Por isso, os produtores começaram a comprar sementes e produtos químicos em lojas, o que resultou numa modernização parcial da produção.
Soluções adotadas
As famílias usam alguns defensivos e máquinas como tratores, mas não têm acesso a todo o suporte técnico necessário para melhorar a produtividade e diminuir o impacto ambiental.
Mesmo assim, o jeito de produzir no Quilombo Mesquita é considerado importante para conservar o Cerrado.
Conservação da área
Dados mostram que terras quilombolas são das áreas mais bem preservadas do Brasil, semelhantes às terras indígenas, mantendo muita vegetação nativa.
Estudos mostram que os métodos agrícolas tradicionais, como os Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs), ajudam a garantir comida e cuidar do meio ambiente.
Esses sistemas combinam o uso do solo, da água e da biodiversidade de forma equilibrada e sustentável.
Agrofloresta e agroecologia
Os sistemas agroflorestais (SAFs), que juntam árvores, plantas e criação de animais, mostram uma forma sustentável de usar a terra com base nos conhecimentos tradicionais.
A Embrapa destaca que essas práticas podem ser misturadas com técnicas tradicionais para melhorar a produção e valorizar os produtos, garantindo renda e qualidade de vida.
Um exemplo é o cultivo do marmelo, que é símbolo cultural da comunidade e usa adubo natural e tratamentos que não poluem o solo nem a água.
Ao contrário, a expansão da monocultura traz problemas como desmatamento, erosão e poluição dos rios.
Invasões e agressões ao território
O Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID/Incra) de 2011 mostra que, dos 4.292,83 hectares que formam o território, somente 761,26 hectares pertencem de fato à comunidade.
Essa diferença indica que parte da terra foi tomada e isso limita os direitos dos quilombolas.
Na área que a comunidade não ocupa, observa-se um uso inadequado do solo que causa destruição ambiental, geralmente pela agricultura em larga escala e pecuária.
Mais da metade do território é usada para agricultura que deixa o solo exposto ou sem vegetação protetora, acelerando o processo de erosão e degradando ecossistemas frágeis.
Tais práticas prejudicam a qualidade do solo e a produtividade, além de causar riscos à água e contaminação química.
Obstáculos para a comunidade
Apesar da importância do Quilombo Mesquita para o equilíbrio da região, ele ainda não tem o título legal das terras, mesmo após quase 20 anos desde seu reconhecimento.
A Danusa Lisboa explica que sem o título, a comunidade não pode acessar crédito rural, programas de apoio nem outros benefícios para desenvolver sua produção agroflorestal de forma completa.
Importância da titulação
A titulação é o processo que garante o reconhecimento oficial e a posse coletiva das terras para a comunidade quilombola.
Sem isso, a comunidade fica vulnerável à especulação imobiliária e à pressão para perder seu território.
O agricultor Júlio Pereira Braga ressalta que de nada adianta ter a terra se não há condição de investir nela.
A coletividade é essencial para a organização local, conforme destaca Sandra Pereira Braga, presidente da associação do Quilombo Mesquita e coordenadora da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq).
Ela comenta que a luta pelo território é constante, enfrentando tentativas de silenciar a comunidade e práticas de racismo, mas a resistência e o trabalho para preservar a cultura e o ambiente continuam firmes.
O caso do Quilombo Mesquita mostra que, enquanto comunidades tradicionais conseguem conservar importantes áreas naturais, a falta de segurança e apoio põe em risco esse patrimônio ambiental e cultural.
Supervisão por Mônica Prado e Luiz Cláudio Ferreira

