ADRIANA FERNANDES E ISABELLA MENON
BRASÍLIA, DF, E WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS)
O Pix, sistema de pagamento instantâneo que transformou as finanças no Brasil, enfrenta um desafio internacional. Essa disputa envolve quem domina as rotas principais do dinheiro no mundo, especialmente com as recentes tarifas impostas pelo governo Trump.
Essa questão não é apenas sobre comércio, mas também envolve poder político e controle sobre moedas digitais e sistemas financeiros.
A briga engloba mais do que bancos e empresas de cartão de crédito. Está relacionada ao poder geopolítico, já que os Estados Unidos desejam manter sua influência sobre sistemas globais de pagamento.
Apesar da importância dos cartões, o avanço do Pix pode diminuir sua relevância no futuro. Controlar os sistemas de pagamento é exercer um tipo de poder global.
O governo Trump aplicou decisões que limitam o acesso de algumas pessoas e instituições ao sistema bancário americano, como no caso da relatora especial da ONU, Francesca Albanese, que teve restrições devido à sua postura política.
Empresas americanas de pagamento, como Visa e Mastercard, costumam seguir essas regras, o que dificulta a atuação independente de empresas estrangeiras.
Este confronto faz parte de um cenário monetário maior, em que países buscam criar suas próprias redes de pagamento para reduzir a influência americana.
Fernanda Garibaldi, advogada e diretora-executiva da Zetta, destaca que essa disputa é sobre controle e poder, e não apenas sobre intermediários financeiros.
Ela ressalta que quem gerencia os sistemas de pagamento também controla mais do que o sistema financeiro tradicional.
Em outros países, como a Suécia, houve um retorno ao uso de dinheiro físico para evitar dependência de sistemas controlados por outras nações.
O Pix no Brasil
No Brasil, o Pix é uma infraestrutura essencial, regulada pelo Banco Central, que atende bancos, fintechs e outras empresas financeiras.
Após a imposição da tarifa de 25% pelo governo dos EUA, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, comparou o Pix a um serviço básico indispensável, como saneamento, argumentando que sua criação não deveria ser taxada para beneficiar outras empresas.
Desde seu lançamento em 2020, o Pix conquistou mais de 170 milhões de usuários, facilitando o acesso a serviços financeiros e aumentando o uso de cartões.
Em junho, foram registradas 7,7 bilhões de transações via Pix, a maior parte processada pelo Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI), tecnologia central do Banco Central.
Enquanto isso, o mercado de cartões também cresceu 10,1%, movimentando R$ 4,5 trilhões em 2025, com 48,1 bilhões de operações.
Vinicius Carrasco, professor da PUC-Rio e economista da Stone, destaca que o Pix foi uma das políticas públicas mais importantes das últimas décadas, promovendo inclusão e digitalização.
Segundo ele, o Banco Central tem ajustado gradualmente a gestão do Pix para ampliar funcionalidades e produtos.
O governo e autoridades reconhecem a pressão das empresas de cartões, que estariam preocupadas com a popularidade crescente do Pix.
Em resposta, Mastercard afirmou que valoriza o Pix e continua a investir no Brasil para inovar e melhorar a segurança e o acesso aos pagamentos digitais.
A Visa também acompanha as investigações do governo americano e mantém diálogo com autoridades para fortalecer a cooperação.
Legislação e recursos
O Banco Central estabeleceu parcerias com mais de 47 bancos centrais para compartilhar a tecnologia do Pix e ajudar outros países a criar seus próprios sistemas de pagamento.
Especialistas defendem a criação de uma lei unificada para garantir segurança jurídica ao Pix, que já oferece diversas funções, incluindo o Pix Crédito.
Entretanto, o orçamento do Banco Central para o Pix e sistemas relacionados tem sido reduzido, o que pode dificultar sua gestão e evolução.
Ivo Mósca, diretor da Febraban, destaca a necessidade de recursos adequados para que o Banco Central possa acompanhar o desenvolvimento tecnológico e garantir supervisão eficiente.
Funcionalidades do Pix
- Pix Automático: permite pagamentos recorrentes com autorização única do usuário.
- Pix Cobrança: usa QR Code para pagamentos imediatos ou com vencimento futuro, com liquidação instantânea e disponibilidade contínua, diferentemente do boleto.
- Pix Aproximação: permite pagamentos por aproximação usando a tecnologia NFC no celular.
- Pix Agendado: permite programar pagamentos para datas futuras, com possibilidade de cancelamento.
- Pix Saque e Pix Troco: facilitam o acesso a dinheiro em espécie em estabelecimentos autorizados, com o Pix Saque sendo uma transação simples para retirada e o Pix Troco combinando compra com saque.
- Pix Crédito: oferece crédito pessoal via Pix, com regras e taxas definidas por cada instituição, mas ainda sem regulamentação formal pelo Banco Central, o que gera preocupações entre especialistas.
