Gabriel Gama
Folhapress
A Petrobras e a Shell estão investindo em uma pesquisa para medir o carbono armazenado nos solos e florestas de todas as regiões do Brasil. O projeto, chamado Carbon Countdown, recebeu R$ 54 milhões de cada empresa e a previsão de conclusão é em 2030.
Essa pesquisa será feita com o Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical, conhecido como CCarbon, ligado à Universidade de São Paulo (USP).
Maurício Cherubin, coordenador científico do Carbon Countdown e professor da Esalq-USP, declarou que o projeto foi construído em parceria e diálogo com as empresas petrolíferas.
Segundo Cherubin, “foi uma construção conjunta ao longo de anos, com a Shell trazendo a ideia inicial e o nosso grupo adaptando o projeto para que fosse viável”.
O principal objetivo é criar uma base confiável que mostre quanto carbono está no solo e nas plantas do país. Isso é importante para o agronegócio brasileiro, que reclama do uso de dados estrangeiros para calcular os gases que a agricultura emite.
Cherubin destaca que o estudo é fundamental para entender melhor as oportunidades para a agricultura e para os ecossistemas naturais, já que atualmente não há uma base sólida dessas informações.
O dióxido de carbono (CO2) é o maior causador do aquecimento global, e as florestas ajudam a retirar esse gás da atmosfera por meio da fotossíntese.
Produtores rurais afirmam que as emissões da agropecuária são menores do que se calcula, porque as plantas dentro das propriedades absorvem CO2. A pesquisa também deve coletar biomassa em áreas agrícolas para medir quanto carbono está guardado nessas plantações.
A ONG Instituto Internacional Arayara alerta que o financiamento de projetos ambientais por empresas de petróleo pode gerar dúvidas sobre possíveis conflitos de interesse ou intenções de influenciar o mercado de carbono para benefício próprio.
Especialistas afirmam: “Esses projetos podem ser usados pelas petroleiras para continuar suas atividades, alegando participação em ações de redução de emissões, além de se beneficiarem com créditos de carbono”.
A Shell e a Petrobras esclarecem que o apoio financeiro ao estudo é um investimento em pesquisa e inovação, conforme regras da Agência Nacional do Petróleo (ANP).
Cherubin defende o envolvimento das empresas no projeto, destacando que elas têm responsabilidade nas mudanças climáticas e devem ajudar a criar estratégias para os próximos anos.
O Carbon Countdown vai analisar vários tipos de uso do solo, como agricultura, pecuária e áreas degradadas, abrangendo todo o Brasil, com coleta em 6.500 locais, nove vezes em cada um. O estudo obterá mais de 250 mil amostras, incluindo medições em florestas, com autorização do Ibama para eventuais cortes de árvores para calibrar os dados.
Alexandre Breda, gerente de tecnologias de baixo carbono da Shell Brasil, explica que o estudo visa aumentar a precisão dos dados sobre carbono no Brasil e que a exploração de combustíveis fósseis deve continuar, mas com segurança energética e avanços em energias renováveis.
Ele afirma: “O Carbon Countdown vai colocar o Brasil em destaque na discussão sobre o carbono, com dados que nenhum outro país terá com tanta precisão”.
André Bueno, gestor ambiental da Petrobras, diz que a empresa acompanhará todo o desenvolvimento do projeto, avaliando metodologias, resultados e dados com um comitê técnico.
Sobre o uso dos dados para compensar emissões da própria Petrobras, Bueno cita que pode haver oportunidades para gerar créditos de carbono com áreas preservadas, além da possibilidade de comercializar créditos relacionados à produção de biocombustíveis.
Ele acrescenta que a pesquisa ajudará a identificar quais biomas têm maior potencial para capturar carbono e onde concentrar esforços para a sustentabilidade.
O Instituto Arayara recomenda cautela ao lidar com os dados, para evitar que sejam usados para justificar maiores créditos de carbono por atividades que ainda dependem de combustíveis fósseis, prática vista como “greenwashing” ou tentativa de melhorar a imagem das empresas.
