Por Ana Mendonça e Davi Moisés
Jessica Cavalcanti carregava desde a infância uma dúvida que silenciosamente a acompanhava: “E se eu for mulher?”
A resposta a essa pergunta veio aos 19 anos, quando um enfermeiro em um hospital de Brasília percebeu o que ela sentia, dizendo: “Quando você vai deixar essa moça que está aí dentro sair? Dá para ver nos seus olhos que tem uma mulher gritando para existir”.
O momento da descoberta
Foi aí que Jessica começou a entender sua identidade. Porém, a liberdade de ser quem realmente era trouxe desafios, e a prostituição tornou-se sua única forma de sobreviver.
“Eu não sonhava em trabalhar na rua. Eu sonhava em sobreviver.”
Hoje com 26 anos, ela reflete sobre sua realidade sem dramatizações.
Antes da prostituição
Jessica estudava fisioterapia e tinha um emprego estável numa empresa que prestava serviços a hospitais. Ela vivia uma fase boa, com amigos, dinheiro e oportunidades. No entanto, em 2022, a empresa fechou e ela perdeu o emprego. Sem apoio da família e sem conseguir recolocação no mercado, precisou encontrar alternativas.
A mudança e as dificuldades
Com dificuldade financeira, Jessica teve que se mudar e, vulnerável, encontrou num cliente da sauna onde trabalhava um apoio que virou dependência. Renato Almeida, que inicialmente era um companheiro, tornou-se uma presença perigosa em sua vida, com histórico criminal e comportamento abusivo, o que a levou a trabalhar na prostituição para sustentar o lar e se proteger.
Superação e novos relacionamentos
Após a prisão de Renato, Jessica conheceu Mário Vieira, que a ajudou a sair da rotina da prostituição. Contudo, esse relacionamento terminou com abandono e sofrimento, que a levaram ao uso de drogas e à volta para o mercado do sexo.
Com o passar do tempo, Jessica conseguiu superar muitas dificuldades, viveu relacionamentos mais saudáveis, enfrentou os traumas causados pela transfobia e busca hoje construir um futuro diferente, apostando nos estudos para ter uma carreira pública.
Outra história: André Calazans
André Calazans, com 28 anos, vive uma realidade distinta. Com uma passagem pela prostituição como complemento financeiro, ele se descobriu homem trans inspirado por figuras públicas e iniciou a terapia hormonal aos 19 anos. Ele valoriza sua autonomia e encara o trabalho sexual com orgulho, vendo nele uma forma de financiar sua transição e sua vida.
Desafios da passabilidade
André atingiu a chamada passabilidade, ou seja, a capacidade de ser reconhecido socialmente como cisgênero, o que reduz sua exposição à discriminação, mas traz um outro desafio no mercado do sexo: a invisibilidade.
Realidade e exclusão social
Corpos trans, como os de Jessica e André, enfrentam uma relação ambivalente na sociedade, sendo desejados e fetichizados mas também excluídos e violentados. A exclusão social leva muitas pessoas trans à prostituição como uma forma de sobrevivência, muitas vezes não por escolha, mas pela falta de alternativas devido à expulsão familiar, violência escolar e dificuldade de emprego.
Reflexão final
Para transformar essa realidade, é fundamental entender as pessoas trans como humanas e garantir direitos básicos como educação, saúde, trabalho e segurança. Sem mudanças estruturais, a prostituição continuará sendo uma alternativa imposta pela exclusão social.
* Os nomes foram alterados para proteger os entrevistados.
