“Um problema que vamos enfrentar por muito tempo.” Assim define a pesquisadora baiana Michele Prado, uma das maiores especialistas em extremismo violento e terrorismo online no Brasil, o crescimento da radicalização em grupos masculinos nas redes sociais.
Michele trabalha no Monitor do Debate Político no Meio Digital da Universidade de São Paulo (USP). Ela já entrou em grupos virtuais para investigar e perceber os perigos para jovens e adolescentes.
Esses grupos, compostos principalmente por homens, podem parecer apenas espaços para conversar, trocar experiências e dar conselhos.
Mas, segundo Michele, esses espaços podem evoluir para discursos agressivos contra mulheres, chegando até mesmo à violência.
Recentemente, um caso de estupro coletivo envolvendo uma menor no Rio de Janeiro chamou atenção para um dos grupos mais conhecidos, chamado “Red Pill”.
Um dos acusados, Vitor Hugo de Oliveira Simonin, apareceu na delegacia usando uma camisa com os dizeres “regret nothing” (não se arrependa de nada), frase ligada ao influenciador inglês Andrew Tate, líder do movimento Red Pill e conhecido por ser misógino.
De acordo com a pesquisadora, os Red Pill fazem parte da ‘machosfera’, um conjunto de comunidades online onde homens expressam queixas e sentimentos, sempre com forte oposição ao feminismo.
Outros grupos desse universo incluem MGTOW (Homens seguindo seu próprio caminho), Incels (celibatários involuntários), MRAs (ativistas dos direitos dos homens) e PUA (artistas da conquista), anteriores ao Red Pill.
Michele compara essas comunidades a ciclistas que andam juntos no mesmo espaço, a machosfera.
Origens
Nos anos 2000, o influenciador de direita Curtis Yarvin usou a metáfora da “pílula vermelha” para uma “guerra cultural”. A ideia veio do filme “The Matrix”, onde o personagem Neo escolhe entre a pílula azul, que mantém na ilusão, ou a vermelha, que desperta para a verdade.
Essa metáfora foi adotada por grupos online que acreditam que as mulheres têm mais direitos que os homens, uma visão conspiratória, segundo Michele.
Machosfera
No começo, esses grupos parecem acolher homens que enfrentam dificuldades pessoais e problemas nos relacionamentos, buscando autoestima e apoio.
Com o tempo, ideias mais rígidas sobre gênero e relações são introduzidas e normalizadas, criando um caminho para a radicalização.
Conteúdos que parecem inofensivos servem para atrair jovens para comunidades que depois se tornam mais fechadas e extremas.
Michele alerta que o crescimento dos grupos Red Pill há cinco anos já mostrava uma ameaça real, com jovens e adultos sendo radicalizados em conteúdos violentos contra mulheres.
As redes sociais ajudam a espalhar essas ideias e influenciam os jovens a adotar essas crenças.
“Crianças e adolescentes vulneráveis que consomem esse conteúdo podem se radicalizar mais facilmente”, destaca a pesquisadora.
Combate
Michele acredita que o problema deve ser tratado como saúde pública, com participação de toda a sociedade. Ela destaca o papel dos pais em acompanhar a vida digital dos filhos, alertando que a internet não é segura nem para adultos.
“Pouco a pouco, as pessoas estão entendendo. Se os pais não sabem do problema, ou a sociedade aceita o bullying, abuso psicológico e discursos de ódio, não adianta. É como enxugar gelo”, afirma.
O combate à radicalização enfrenta desafios que vão além do trabalho individual ou institucional. A persistência desses grupos mostra falhas no ambiente digital e na resposta social ao extremismo.
Michele também cita que as leis brasileiras ainda não estão preparadas para lidar com crimes como extremismo violento, terrorismo e misoginia nas redes sociais, o que dificulta o combate.
Esse avanço ocorre num contexto maior de normalização da violência e do discurso de ódio. O desafio é entender as causas do problema e enfrentar as condições que permitem sua continuidade.
Supervisão de Luiz Cláudio Ferreira
