Muitas pessoas no Distrito Federal utilizam a bicicleta para trabalhar, praticar esportes ou se locomover. Apesar do crescimento das ciclovias, problemas como interrupções na rede, travessias perigosas, falta de manutenção e o comportamento imprudente de motoristas aumentam o risco para quem pedala.
Este alerta chama atenção especialmente no Dia Nacional do Ciclista, celebrado em 19 de agosto, que homenageia **Pedro Davison**, ciclista que morreu atropelado em Brasília em 2006, símbolo da luta por mais segurança no trânsito.
Entre 2022 e 2025, 60 ciclistas perderam a vida em acidentes de trânsito no DF, com 17 mortes em 2025, ainda que tenha havido uma leve queda em relação ao ano anterior. Esses números indicam a vulnerabilidade dos ciclistas, principalmente em vias rápidas e locais de conflito com veículos.
Para a doutora em Transportes pela Universidade de Brasília, Adriana Souza, não dá para afirmar que pedalar no DF é totalmente seguro ou inseguro. A experiência depende do horário, da infraestrutura e do trajeto.
Ela destaca que o risco é variável conforme as condições das ruas, e que Brasília ainda apresenta um ambiente hostil para ciclistas, devido à velocidade alta nas vias urbanas e rodovias, à falta de respeito dos motoristas e aos conflitos com outros veículos.
Mesmo sendo a segunda maior rede cicloviária do país, a extensão não garante segurança. A especialista ressalta problemas como interrupções, travessias complicadas, iluminação fraca, sinalizações incompletas ou apagadas, manutenção precária e conflitos no cruzamento das vias.
Adriana defende que o foco deve passar de expandir a malha para melhorar a eficiência e conexão da rede existente, tornando-a contínua, segura e integrada ao transporte público.
Júlio César Silva dos Santos, soldador que pedala cerca de seis quilômetros para trabalhar, conta que pela manhã o trânsito mais calmo facilita o trajeto, mas no fim do dia enfrenta desafios, já que não há ciclovia entre P Sul e P Norte, obrigando-o a dividir espaço com carros.
Ele relata que a maioria dos motoristas respeita os ciclistas, mas alguns demonstram comportamentos agressivos, como xingamentos e ultrapassagens perigosas.
Apesar das dificuldades, Júlio não abre mão da bicicleta, que para ele representa também uma forma de viajar pelo país, tendo feito longas viagens entre Brasília e outros estados.
Para quem perdeu um ente querido, a questão da segurança no trânsito é uma dor pessoal. Regina Machado perdeu sua filha, Amanda Machado Suzane, aos 25 anos, que morreu atropelada enquanto pedalava na EPTG.
Testemunhas afirmaram que a pista estava livre quando Amanda iniciou a travessia, mas um carro em alta velocidade a atingiu, sem que o motorista freasse.
Raphael Barros Dorneles, coordenador da ONG Rodas da Paz, reforça que a segurança no trânsito deve ser planejada para evitar que erros humanos causem mortes. Segundo ele, Brasília ainda não adotou completamente essa visão, pois mantém velocidades elevadas e falta prioridade aos ciclistas.
Ele cita pontos da cidade como Saída Norte e Lago Sul que têm histórico elevado de acidentes devido à velocidade e à infraestrutura cicloviária mal projetada.
Em Águas Claras, há também problemas com motoristas que não respeitam a existência das ciclofaixas ao entrar em retornos.
Dorneles ressalta que afastar a bicicleta dos carros não é suficiente e que os cruzamentos precisam ser estruturados para garantir prioridade e segurança aos ciclistas.
Ele defende que seja respeitado o artigo 29 do Código de Trânsito Brasileiro, que dá prioridade aos meios de transporte ativos, para fomentar o uso da bicicleta na cidade.
A ONG apoia ainda o conceito de Visão Zero, que busca eliminar mortes no trânsito com planejamento adequado da infraestrutura viária, redução de velocidades e mudança nas prioridades no trânsito urbano.
Nos últimos 20 anos, Brasília avançou bastante na construção de ciclovias e na redução de mortes de ciclistas, mas o progresso estagnou, e ainda é necessário combater as altas velocidades e priorizar o ciclista no trânsito.
