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domingo, 01/02/2026

Pecuária no Brasil consome mais água do que grandes estados juntos

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JÉSSICA MAES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

A produção de carne e soja no Brasil usa uma quantidade enorme de água do país.

A pecuária, por exemplo, precisa de cerca de 10,1 a 10,4 bilhões de metros cúbicos de água por ano para cuidar dos animais. Essa água vem de rios e aquíferos e é mais do que o volume usado por toda a população dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná e do Distrito Federal juntos, que consomem 7,8 bilhões de m³.

Já o cultivo de soja, que é um dos principais produtos exportados pelo Brasil, utiliza entre 188 e 206 bilhões de metros cúbicos de água ao ano — o que equivale a sete vezes o volume da represa de Itaipu, que armazena cerca de 29 bilhões de m³. A maior parte dessa água vem da chuva, e apenas cerca de 8% da soja depende de irrigação.

Esses dados são resultado de uma análise da Trase, uma iniciativa que acompanha cadeias produtivas, usando dados do Mapbiomas e da Agência Nacional de Águas e Saneamento (ANA). A pesquisa considerou o período de 2015 a 2017, quando os dados foram mais precisos e completos.

O setor agrícola é o maior consumidor de água no mundo, usando 70% dos 4 trilhões de metros cúbicos consumidos globalmente em 2020, de acordo com um relatório da ONU.

Michael Lathuillière, pesquisador sênior do Instituto de Meio Ambiente de Estocolmo e um dos autores do estudo, explica: “Queremos mostrar o quanto de água usamos indiretamente, por meio dos produtos que consumimos. O Brasil, de certa forma, está exportando recursos hídricos.”

O estudo calcula a dependência das maiores empresas brasileiras de soja e carne bovina em relação às águas das 12 principais bacias hidrográficas do país.

Segundo Lathuillière, “Essas grandes empresas podem avaliar não só sua dependência da água na cadeia produtiva, mas também os riscos que correm caso falte água em alguma região do Brasil.”

Os maiores vendedores de carne bovina — JBS, Minerva, Marfrig e Mataboi Alimentos — dependem principalmente das bacias do Paraná (28%), Tocantins-Araguaia (26%) e Amazônica (23%), com 23% da produção em outras bacias.

A maior parte da água usada na pecuária não é bebida diretamente pelos animais. Eles se hidratam em pequenos reservatórios, onde muita água evapora — isso representa cerca de dois terços do total usado na produção. Essa perda reduz a quantidade de água disponível para outros usos, como a vida aquática, consumo doméstico e produção de energia.

Já os cinco maiores compradores de soja no Brasil — Bunge, ADM, Cargill, Louis Dreyfus e Cofco — dependem principalmente da bacia do rio São Francisco para irrigar suas plantações.

Essas cadeias produtivas, que estão principalmente na Amazônia e no Cerrado, são vulneráveis à escassez de água, um problema que já afeta o país e tende a piorar se a economia não se tornar mais verde.

Isso acontece tanto pela crise climática, que mudará o padrão de chuvas nas próximas décadas e reduzirá a disponibilidade de água, quanto pelo desmatamento.

Um estudo publicado em 2024 mostrou que o desmatamento causou um prejuízo de cerca de US$ 1,03 bilhão (aproximadamente R$ 5,8 bilhões) na produção de soja e milho na Amazônia, entre 2006 e 2019, pois a destruição da floresta alterou o clima local, atrasando as chuvas, diminuindo o volume anual e aumentando as temperaturas.

No Cerrado, pesquisas recentes indicam que a vazão dos rios caiu 27% desde a década de 1970, o que equivale a uma perda de 30 piscinas olímpicas de água a cada minuto. Também houve uma queda de 21% nas chuvas nessa região.

A escassez de água, tanto na superfície quanto nos aquíferos, pode afetar a pecuária e a soja irrigada, além de criar competição pelo uso da água nas regiões onde estão instaladas.

O estudo destaca que a exposição à falta de água das principais empresas exportadoras de carne é concentrada. Dentre as analisadas, somente a Marfrig não enfrenta risco crítico de escassez na bacia do São Francisco, embora um terço de suas exportações esteja em risco nas bacias do Atlântico Sul e Uruguai.

Lathuillière observa: “Há um problema político e de gestão no Brasil, porque muitos reservatórios foram construídos para captar água sem autorização adequada.”

No caso da soja, que depende mais da chuva, as condições climáticas são determinantes.

Os maiores produtores de soja no Brasil obtêm a maior parte da produção em áreas com chances de seca entre 10% e 20%. A situação mais difícil é da Bunge, que tem mais de um terço da produção em municípios com risco de estiagem acima de 20%.

O estudo sugere caminhos para reduzir essa dependência da água nas grandes cadeias produtivas.

“Exportadores, governos e financiadores têm papel importante. Estabelecer metas para uso da água, melhorar os relatórios e alinhar políticas com o uso sustentável pode diminuir riscos”, diz o documento.

Os pesquisadores também reforçam a necessidade de mais transparência na cadeia produtiva em relação aos impactos ambientais, além do desmatamento, incluindo indicadores do uso da água para um comércio mais sustentável.

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