PATRÍCIA PASQUINI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Casos de inflamação no pâncreas, chamada pancreatite, depois do uso de medicamentos injetáveis para diabetes e perda de peso são bastante raros, afirmam especialistas. Esses remédios, que incluem semaglutida, liraglutida, lixisenatida, dulaglutida e tirzepatida, precisam ser usados com acompanhamento médico adequado.
A Anvisa registrou um aumento no número de notificações suspeitas de pancreatite ligadas ao uso dessas canetas para emagrecer no Brasil, entre 2020 e 2025, com seis mortes suspeitas no total.
Pessoas com histórico de pancreatite repetida, ou seja, que já tiveram duas ou mais vezes essa inflamação, devem evitar esses remédios. A bula do Mounjaro traz esse alerta. Contudo, não há motivo para alarmes, segundo dois médicos ouvidos pela reportagem.
Alexandre Hohl, diretor da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica) e do departamento de endocrinologia feminina da Sbem (Sociedade Brasileira de Endocrinologia Metabólica), diz: “Não há aumento significativo no número de casos suspeitos de pancreatite ou morte ligada a esses medicamentos para gerar mais preocupação do que o que já se sabe. Não deve haver medo para as pessoas que precisam usar essas medicações, que estão transformando suas vidas”.
O gastroenterologista Rogério Alves, da Beneficência Portuguesa, explica que até agora não há comprovação de que esses remédios causem a inflamação no pâncreas.
A causa mais comum da pancreatite é a pedra na vesícula, que pode bloquear o caminho por onde as enzimas pancreáticas saem para o intestino. Quando ficam presas, essas enzimas causam inflamação.
Rogério Alves complementa que esses medicamentos diminuem o funcionamento do sistema gastrointestinal, o que pode deixar a vesícula mais lenta e facilitar o aparecimento de pedras. Por isso, algumas pessoas chegam a sugerir que a vesícula seja retirada antes de começar o tratamento com esses remédios.
Alexandre Hohl lembra que o pâncreas é monitorado desde o uso dos inibidores da enzima DPP-4, utilizados para tratar diabetes tipo 2, como a sitagliptina, que foi aprovada no Brasil em 2008.
Ele ainda comenta que, em estudos recentes com semaglutida, os casos de pancreatite foram similares entre quem tomou o medicamento e o grupo placebo, mostrando que não há aumento do risco.
O fator principal é que quem precisa dessas medicações costuma ter condições que aumentam o risco de pancreatite, como diabetes, obesidade e triglicerídeos altos.
Alexandre Hohl reforça que nenhum estudo mostrou que essas drogas aumentam o risco da doença em comparação com placebo, e que os dados no Brasil estão alinhados com os do resto do mundo.
Além disso, emagrecer rápido, inclusive após cirurgia bariátrica, pode favorecer a formação de pedras na vesícula e causar pancreatite, independentemente da medicação utilizada.
Outro fator importante são os triglicerídeos elevados, comuns em pessoas com diabetes e obesidade; a combinação desses fatores é que pode levar à pancreatite, não a medicação sozinha.
Alexandre Hohl alerta que qualquer pessoa usando semaglutida, tirzepatida ou outras drogas dessa classe deve procurar ajuda médica se sentir uma dor forte e súbita na parte superior do abdômen, que pode ir para as costas e não melhora com o tempo, pois essa dor pode ser sinal de pancreatite.
Os especialistas recomendam o uso correto dessas medicações, seguindo a regulação da Anvisa e sempre com acompanhamento médico atento.
Rogério Alves destaca a importância de acompanhamento por outros especialistas, como hepatologistas, que cuidam do fígado, e gastroenterologistas, especialmente se a pessoa tem histórico de problemas na vesícula.
Ele alerta: “Procure profissionais capacitados e tome cuidado com locais que aplicam esses remédios sem acompanhamento adequado, pois o uso certo desses medicamentos é fundamental. A busca por perda de peso virou um grande negócio, mas a saúde deve estar em primeiro lugar”.
