Por Ana Luisa Oliveira, Isadora Carmona e Laura Cunha
Agência de Notícias do CEUB
Camila Diniz Florencio, que tem 20 anos atualmente, é estudante de medicina e começou sua carreira como influenciadora mirim no YouTube aos 10 anos, com o canal Na mala da Mila.
Ela inicialmente sonhava em ser atriz, mas ao perceber os desafios dessa profissão, encontrou na criação de vídeos na internet uma forma de conquistar seu espaço.
Debate em alta
O tema do uso do trabalho infantil nas redes sociais voltou às discussões publicas desde que, no dia 6 de agosto, o YouTuber Felipe Bressanim Pereira (Felca) lançou um vídeo denunciando a sexualização e a exposição indevida de crianças e adolescentes nas redes sociais.
O vídeo atingiu 47 milhões de visualizações e gerou investigações para verificar se os responsáveis não estavam protegendo os direitos dessas crianças adequadamente. Isso levou à aprovação, no dia 20 de agosto, do Projeto de Lei 2628/22 na Câmara dos Deputados, que visa criar regras para proteger crianças e adolescentes no ambiente digital.
Esse projeto seguirá para análise no Senado e continuará em discussão na Câmara por mais 30 dias, conduzido por um grupo especial criado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta.
Acesso das crianças à internet
De acordo com a pesquisa TIC Kids Online, de 2024, mais da metade das crianças brasileiras começam a usar a internet antes dos 10 anos de idade.
Além disso, 35% dessas crianças já postaram conteúdos próprios nas redes sociais. Com esse cenário, surge a dúvida sobre como garantir a segurança de influenciadores mirins nas redes.
Qual é o papel dos pais para proteger esses jovens criadores digitais?
Proteção dos pais
A mãe de Camila, Gracielly Diniz Florencio, que também é assessora dela, conta das preocupações da família quanto ao conteúdo postado e a exposição nas redes sociais.
“Eu e o pai dela ficamos preocupados principalmente pelo tipo de conteúdo que expunha muito a vida pessoal”, diz Gracielly à Agência Ceub.
Para evitar riscos, ela editava os vídeos para retirar cenas que pudessem atrair pessoas com más intenções. Entre janeiro e julho de 2025, a SaferNet Brasil registrou quase 50 mil denúncias de pornografia infantil, um aumento considerável em relação ao ano anterior.
Perigos na rede
A mãe da influenciadora mirim Valentina, de 12 anos, Priscila Caxito, também manifestou preocupação com a segurança da filha contra possíveis abordagens perigosas.
Ela monitora as publicações e mensagens que Valentina recebe e evita divulgar sua localização em tempo real. Valentina começou a aparecer no Instagram aos 1 ano de idade, inicialmente para compartilhar momentos com familiares.
Com o sucesso no concurso Baby Miss Distrito Federal em 2016, Valentina passou a ganhar patrocinadores e participar de eventos, aumentando sua exposição.
Em 2025, o Ministério da Justiça alterou a recomendação de idade para uso do Instagram, que passou a ser não indicado para menores de 16 anos.
Apoio psicológico
A psicóloga Letícia Borges alerta para os impactos psicológicos que a exposição precoce nas redes pode causar, como distorção da autoimagem, ansiedade, medo da rejeição e dificuldades em lidar com frustrações.
Ela destaca a importância dos direitos básicos da infância, como estudo, lazer e tempo livre, e recomenda que os pais observem sinais como irritabilidade, queda no desempenho escolar e dificuldade em lidar com problemas.
“Pais devem ficar atentos a mudanças de comportamento que indiquem que algo não está bem”, explica a psicóloga.
A recomendação inclui acompanhamento psicológico e diálogo aberto entre pais e filhos para garantir um ambiente seguro.
Camila conta que precisou abrir mão de parte da vida pessoal para manter sua carreira online, mas sempre manteve boas notas na escola.
“Às vezes gravava até tarde no dia da prova, mas sempre fui uma das melhores alunas”, comenta.
A pesquisa Pisa mostrou que alunos que passam muito tempo em dispositivos eletrônicos podem ter notas mais baixas em matérias escolares.
Mesmo enfrentando bullying por causa dos vídeos, Camila afirma que teve uma adolescência saudável graças ao apoio dos pais, que sempre priorizaram seu bem-estar acima da carreira de influenciadora.
Valentina também tem o uso das redes controlado, com mensagens desativadas no celular e sua mãe avisando sobre qualquer contato.
Rotina equilibrada
Hoje, Camila concilia os estudos de medicina com a produção de vídeos e quer continuar nas duas áreas.
“Quero trabalhar com medicina e internet ao mesmo tempo, integrando as duas coisas”, afirma.
Valentina, por sua vez, mantém uma rotina equilibrada entre a vida online e outras atividades como teatro e jiu-jitsu, fazendo apenas uma postagem patrocinada por dia, e valoriza os benefícios que a carreira lhe trouxe.
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira