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sábado, 14/02/2026

Pais de adolescente ainda recebem ameaças mesmo após ele ser inocentado no caso do cão Orelha

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Carlos Villela
Folhapress

O inquérito que investigou a morte do cachorro comunitário Orelha apontou o indiciamento de apenas um dos quatro jovens inicialmente suspeitos. Mesmo assim, os pais de um dos adolescentes que foi inocentado dizem que não se sentem tranquilos.

A família, que optou por manter a identidade do jovem em sigilo para protegê-lo, falou com a Folha de S.Paulo por videochamada nesta quinta-feira (5). Eles revelam que têm sofrido ataques online desde que o caso ganhou repercussão nacional, no final de janeiro, pela morte violenta do cão que vivia na Praia Brava, em Florianópolis (Santa Catarina).

A mãe conta que recebem pelo menos 30 ameaças diárias pelas redes sociais.

Fotos dos jovens suspeitos foram compartilhadas em redes sociais, incluindo informações pessoais como endereço, documentos, placas de carro e dados bancários. “As pessoas enviam mesmo pequenos valores de Pix para mandar mensagens como ‘vou te matar’, ‘sua família acabou’ e ‘vamos pegar vocês'”, relata o pai.

A família precisou usar suas economias para contratar segurança particular devido às ameaças. Eles também relatam que há pessoas tentando organizar protestos em frente à residência onde moram.

A mãe, que tinha um negócio online, teve que interromper suas atividades por causa da exposição do caso.

“Mesmo com todas as notícias comprovando a inocência dele, a internet adotou uma versão e virou verdade para muita gente. Parece que, mesmo que os anjos descessem para dizer que não foi ele, não aceitariam”, diz o pai.

Ele conta que o filho está emocionalmente abalado, deixou de usar as redes sociais e está fazendo acompanhamento psicológico. Desde então, a família está vivendo de forma reclusa.

A irmã do jovem também passou a ser alvo de exposição nas redes sociais. Perfis afirmam que ela seria a jovem nas imagens ao lado do adolescente acusado, informação já desmentida pela polícia.

“Todo mundo pensa que tem algo por trás, que pagamos alguém, que existe uma conspiração”, diz o pai. “Não fazemos parte de nenhum grupo ou elite que possa interferir no que está acontecendo.”

A família relata que a polícia ainda não oficializou a conclusão das investigações e que os dispositivos eletrônicos apreendidos durante o mandado de busca no dia 27 de janeiro ainda não foram devolvidos. Eles dizem colaborar com as autoridades.

Imagens foram expostas em grupo do condomínio, dizem os pais

Os pais afirmam que a exposição saiu do controle depois que fotos do filho deles começaram a circular em um grupo de WhatsApp da comunidade da Praia Brava, em meio a conflitos entre jovens do condomínio e um porteiro. Haveria um histórico de reclamações do funcionário contra o comportamento dos adolescentes no local.

Na noite de 12 de janeiro, o porteiro teria feito ameaças verbais ao filho do casal e ao jovem ainda suspeito, que precisou ser internado por determinação da Polícia Civil de Santa Catarina. Eles entravam juntos no condomínio para uma festa de um amigo aprovado no vestibular.

O pai afirma que conversou pacificamente com o porteiro naquela mesma noite e trocou contatos telefônicos, sem mencionar a morte do cão Orelha.

A família mostra um vídeo do jovem cuidando de animais em casa, beijando o cachorro Caramelo e dando água a ele. “Um adolescente que trata um cachorro assim não sairia para matar outro cão. Isso não faz sentido.”, afirma.

No dia seguinte, um áudio do porteiro começou a circular em grupos, sugerindo que adolescentes locais estariam envolvidos na morte de Orelha. A família tentou contato com o funcionário sem sucesso e registrou boletim de ocorrência por calúnia. A versão de que o funcionário teria filmado a agressão foi negada por ele mesmo em depoimento.

O jovem também chegou a ser acusado de envolvimento em outro ataque contra o cão Caramelo, que sofreu tentativa de afogamento na mesma região, mas a família provou que ele não estava no local naquela época.

Os pais mantêm amizade com a família do único adolescente indiciado e acreditam que a acusação não tem base sólida, se apoiando em indícios fracos. A Polícia Civil ainda não comentou as críticas da família.

Os pais também criticam a atuação das autoridades durante as investigações, afirmando que a polícia falhou em evitar julgamentos antecipados e ataques na internet. “Foi uma brutalidade o que aconteceu. Temos animais e isso é horrível. Mas precisamos apurar os fatos com seriedade”, destaca o pai.

Por pedido das defesas dos jovens suspeitos, a Justiça de Santa Catarina ordenou a remoção de publicações que expunham os menores. “Não fizemos isso para nos esconder, mas para proteger um menor inocente. Ele quer se explicar e mostrar sua inocência”, afirma o pai.

A família pensa em buscar responsabilização judicial pela divulgação de mensagens caluniosas, mas atualmente deseja retomar sua rotina.

“Muitos amigos se afastaram e familiares também têm recebido ameaças e cobranças no trabalho”, conta a mãe. “Não sei se o dano causado pode ser reparado.”, conclui.

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