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sexta-feira, 09/01/2026

Paciente recupera movimento no pé e na perna após tratamento inovador

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Jairo Marques
São Paulo, SP (Folhapress)

“Acordei no meio da noite com o pensamento de que conseguiria mexer meu pé. Minha esposa estava do meu lado na maca, no hospital. Pensei em enviar um estímulo para o pé e mexê-lo. E não foi um movimento pequeno, mexi o pé direito completamente. Fiz a contração muscular.”

Esse é o relato de Diogo Barros Brollo, 35 anos, que sofreu uma lesão total na medula após uma queda de um prédio enquanto trabalhava em Friburgo (RJ). Ele ficou paraplégico, sem movimentação ou sensibilidade da cintura para baixo.

Há cerca de um mês, por uma decisão judicial, ele recebeu uma aplicação de polilaminina, substância ainda em fase de testes pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Essa substância pode ajudar a regenerar lesões na medula, conforme pesquisa liderada pela bióloga Tatiana Coelho de Sampaio da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Duas semanas depois da aplicação, Diogo começou a sentir partes das pernas e a mover o pé, contrair a coxa e os músculos do esfíncter. Esse progresso foi confirmado por ele e pela equipe científica da bióloga.

“Não é um reflexo involuntário. Eu mexo o pé quando quero. Posso segurar a perna dobrada, algo que era impossível dias atrás. Estou tendo contração muscular voluntária”, diz Diogo.

Dentro da pesquisa pré-clínica, autorizada pela Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa), a polilaminina foi aplicada em animais e em seis voluntários. Um deles, Bruno Drummond de Freitas, 31 anos, que tinha tetraplegia, conseguiu voltar a andar.

Casos de pessoas com lesão completa na medula que recuperaram movimentos e sensibilidade são muito raros. Médicos afirmam que, em algumas situações, após o inchaço da região decorrente do trauma diminuir, pode ocorrer alguma melhora, dependendo do dano.

Diogo, que trabalha como vidraceiro e é pai de três meninas, expressa sua gratidão: “Sou grato por ter tido acesso à aplicação. Tive uma grande chance. É maravilhoso ver que o estudo da doutora Tatiana está dando resultados e se encaminha para ser liberado para outros pacientes.”

A equipe de fisioterapia do Hospital Evangélico de Cachoeiro do Itapemirim, onde está em recuperação Luiz Fernando Mozer, 37 anos, que também recebeu a polilaminina por ordem judicial após um acidente de moto causou uma lesão completa, relata progresso “significativo”.

“Mesmo frente a um quadro complexo, o paciente apresenta evolução contínua, com contração voluntária do membro inferior, o que é um ganho funcional importante para essa fase da recuperação”, informa a equipe do hospital.

Os especialistas também destacam que a reabilitação continua focada no controle do tronco, fortalecimento muscular, melhora da sensibilidade e aumento da independência funcional.

“Este caso representa uma experiência inovadora e desafiadora, reforçando o compromisso da instituição com a ciência, a reabilitação baseada em evidências e a crença no potencial de recuperação dos pacientes, evidenciando a importância do trabalho em equipe e da intervenção precoce nas lesões medulares”, destacam em nota.

Uma mulher de 35 anos, que sofreu grave lesão após um acidente de carro em Governador Valadares (MG) e recebeu a substância judicialmente, também tem apresentado avanços. De acordo com familiares e pesquisadores, ela voltou a sentir toque nas pernas e consegue contrair a coxa.

Os testes oficiais da polilaminina, que avaliam a segurança do medicamento, serão realizados apenas em voluntários com lesões completas e agudas na medula, ocorridas em até 72 horas, que têm maior chance de recuperação.

Liminares judiciais autorizam aplicações de polilaminina

Já existem dez decisões judiciais que obrigam o laboratório Cristália, o grupo de pesquisadores da UFRJ e o poder público a realizarem a aplicação da polilaminina em pacientes com lesões medulares traumáticas.

Cinco dessas decisões já foram cumpridas até o momento.

Quatro liminares foram ou ainda serão cumpridas nesta semana. As cirurgias aconteceram em Caraguatatuba (SP) e Vitória (ES), e estão previstas para ocorrer em Maringá (PR) e Salvador (BA) em breve.

O laboratório Cristália, que apoia financeiramente o estudo e deve produzir o medicamento caso ele seja aprovado pela Anvisa, afirmou que seguirá cumprindo as decisões judiciais, que contam com aprovação da agência reguladora.

Até agora, a empresa está arcando com os custos das aplicações. Caso o medicamento seja aprovado, poderá ser fornecido pelo SUS (Sistema Único de Saúde), conforme negociações já iniciadas entre a Cristália e o Ministério da Saúde.

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