O projeto De Olho na Maré registrou um total de 231 operações policiais no Complexo da Maré, um conjunto de 15 favelas no Rio de Janeiro, entre os anos de 2016 e 2025. Essas ações resultaram em 160 mortos e 1.538 violações dos direitos dos moradores, incluindo ameaças, tortura e prisão ilegal, conforme apontado na 9ª edição do Boletim Direito à Segurança Pública na Maré, produzido pela Redes da Maré.
A violência armada afetou direitos básicos, como educação e saúde. Escolas públicas foram fechadas por 163 dias, o que equivale a perder cerca de um ano letivo para crianças e adolescentes da região. Na área da saúde, apenas em 2025, houve interrupção por 14 dias em unidades de atendimento, resultando na perda de 7.866 acompanhamentos médicos.
Em 2025, ocorreram 16 operações, com 12 mortes, representando um aumento de 58% na taxa de mortes proporcionais em comparação a 2024, ano que teve 42 operações e menor letalidade. Apesar da redução no número de ações, a Redes da Maré aponta para operações mais agressivas, com uso intensivo de armamentos pesados e longas incursões em áreas densamente povoadas. Oito das 16 operações utilizaram helicópteros, sendo quatro usados como plataformas de tiro, com pelo menos 308 marcas de tiros nas ruas.
Das 160 mortes na década, somente 16 tiveram perícia no local, e apenas uma resultou em denúncia formal. A coordenadora do eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré, Tainá Alvarenga, destacou a negligência do Estado para preservar cenas de crime e a instabilidade usada como justificativa para a ausência de perícias na região da Maré.
Pesquisas da organização em parceria com o Unicef mostraram impactos na saúde mental e na vacinação de crianças de zero a seis anos. Apesar de 90% da população da Maré ter a carteirinha de vacinação completa, a cobertura cai nos dias de operações, e as aulas perdidas não são repostas. A diretora da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva, enfatizou que a violência frequente faz com que interrupções em serviços públicos essenciais nas favelas sejam normalizadas.
Além das operações policiais, em 2025 foram registradas 11 mortes causadas por grupos armados, com violência física, psicológica, verbal, ameaças, deslocamentos forçados, invasões de escolas e 141 tiros registrados.
No âmbito estadual, o Instituto de Segurança Pública (ISP) indicou 797 mortes por intervenção policial em 2025, um aumento de 13% em relação a 2024, com também mais policiais mortos, sem que haja maior proteção para civis ou agentes.
O boletim será lançado na terça-feira (24) durante o 3º Congresso Internacional Falando sobre Segurança Pública na Maré, na Areninha Cultural Herbert Vianna, e será encaminhado a órgãos dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Em agosto de 2024, o Ministério Público Federal questionou o Ministério da Educação sobre os impactos das operações, resultando na criação, em janeiro de 2025, do Fórum pelos 200 dias letivos e da Comissão Permanente de Acompanhamento da Obrigatoriedade de Cumprimento dos 200 Dias Letivos, da qual a Redes da Maré faz parte.
Em resposta, a Secretaria de Estado de Polícia Civil do Rio de Janeiro afirmou desconhecer a metodologia da pesquisa e disse atuar com base em critérios técnicos, inteligência e planejamento, focando no cumprimento de mandados judiciais e na preservação de vidas, sempre pautada pela legalidade, necessidade e proporcionalidade. Todos os casos são investigados, com perícia incluída no processo. A secretaria atribui os confrontos aos criminosos, que instalam bunkers em áreas sensíveis, expondo os moradores. A Polícia Militar não respondeu aos questionamentos.
