FILIPE VILICIC
ITU, SP (FOLHAPRESS)
O filho da chef catarinense Fernanda Alves de Araújo, 44 anos, parou de falar por volta de 1 ano de idade. Essa mudança no comportamento de Mariano, que tem autismo e hoje tem 10 anos, mobilizou a família a participar de uma pesquisa feita por duas universidades em Santa Catarina, utilizando óleo de canabidiol (CBD).
De acordo com sua mãe, Mariano voltou a falar perto dos 4 anos, e ela acredita que o uso do extrato da Cannabis foi fundamental para essa melhora. “Antes, ele não mantinha contato visual conosco. O CBD ajudou-o a prestar mais atenção, a se envolver socialmente e a conversar”, relata.
Mariano é um dos 30 participantes com transtorno do espectro autista (TEA), com idades entre 2 e 15 anos, acompanhados durante 24 semanas por pesquisadores da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina) e da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
“A principal melhora observada pelos pais é a redução da agitação motora. As crianças ficam mais calmas, tranquilas e mais receptivas para frequentar aulas e terapias”, explica o médico Alysson Madruga de Liz, autor principal do estudo. “Também foi notada melhora na sociabilidade, o que é relevante, já que não existe medicação aprovada que auxilie nessa área para crianças autistas. Isso tem um impacto positivo no progresso das terapias”, complementa.
Alysson Liz desenvolveu o estudo junto com os neurocientistas Paulo Bitencourt, professor da UFSC, e Rafael Mariano de Bitencourt, do Laboratório de Neurociência Comportamental da UNISUL, com colaboração de pesquisadores do Canadá e Itália. O artigo foi publicado na revista Clinical Neuropsychopharmacology and Addiction em 31 de outubro.
O estudo buscou identificar efeitos negativos do uso do óleo de CBD, que tinha uma proporção de 14 partes de canabidiol para 1 parte de THC — o componente psicoativo da Cannabis. Ou seja, o produto contém pouca quantidade de THC e maior concentração de CBD, que está associado a controle da irritabilidade, melhora do sono, alívio de dores crônicas e tratamento de ansiedade.
O óleo rico em CBD foi fornecido pela Associação Brasileira de Acesso à Cannabis Terapêutica (Abraflor), autorizada para uso medicinal no Brasil. Entre os 30 participantes, 16 reduziram ou suspenderam o uso de outras medicações, como risperidona, substituindo-as pelo óleo. Os efeitos colaterais relatados foram aumento do apetite e, em alguns casos, nervosismo.
Alysson Liz ressalta as limitações da pesquisa: “Precisamos de estudos com mais participantes. O medicamento ainda está em fase de testes, apesar dos resultados importantes publicados, especialmente desde 2020”.
Um estudo de 2021, realizado por pesquisadores israelenses do Shaare Zedek Medical Center, acompanhou 150 crianças e adolescentes com TEA entre 5 e 12 anos, divididos entre grupos que receberam óleo de Cannabis ou placebo. Cerca de 49% dos que usaram o medicamento apresentaram melhoras nos sintomas do autismo, uma porcentagem significativa dado que não há tratamento farmacológico reconhecido para os sintomas centrais do TEA.
Segundo Alysson Liz, para crianças que não respondem a outras terapias, principalmente quando apresentam agitação e agressividade, o canabidiol é prescrito como alternativa.
O coautor Rafael Mariano de Bitencourt destaca a necessidade da ciência considerar também o uso empírico do canabidiol por muitas famílias.
Os pais de Mariano, o engenheiro eletricista João de Araújo, 45 anos, e a chef Fernanda Alves de Araújo, contam que aceitaram participar da pesquisa buscando mais evidências científicas para o tratamento do filho.
Mariano inicialmente deixou outros medicamentos para usar o óleo de Cannabis, depois passou a não responder mais ao CBD, mas hoje voltou ao uso do óleo, alternando com medicamentos químicos conforme a necessidade.
“Não é questão de escolher entre natural ou químico. O importante é observar o que meu filho precisa em cada momento”, conclui a mãe.
