VITOR HUGO BATISTA
FOLHAPRESS
A pausa na adição de flúor à água pode diminuir a proteção contra cáries nos dentes e, se durar muito, aumentar problemas dentários, especialmente para crianças, idosos e pessoas com menor acesso a cuidados médicos.
Este problema surgiu depois que a Aesbe (Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento) pediu autorização na Justiça para suspender por 90 dias a obrigação de colocar flúor na água.
Desde 1974, é lei no Brasil que a água das cidades tenha flúor para proteger a saúde das pessoas. Mas a Aesbe está preocupada com a falta do ácido fluossilícico, que é o produto usado para colocar o flúor na água, porque a maior fabricante, a Mosaic, parou de fornecer por causa do aumento no preço do enxofre, matéria-prima usada na produção, devido aos conflitos no Oriente Médio e o fechamento do estreito de Hormuz.
A Aesbe congrega empresas importantes como Sabesp, Cagece (Ceará), Cagepa (Paraíba), Cesan (Espírito Santo), Sanepar (Paraná) e BRK.
O especialista Thiago Lucena, dentista e mestre em Odontologia pela UFRJ, explica que o flúor na água ajuda a proteger os dentes contra os ácidos das bactérias e ajuda a fortalecer o esmalte do dente.
Segundo ele, parar de colocar flúor na água não faz as cáries aparecerem imediatamente, mas retira uma proteção importante para toda a população, inclusive para quem não usa creme dental com flúor ou não vai ao dentista com frequência.
Uma interrupção curta tem um efeito menor, mas um tempo longo pode ser preocupante porque diminui a proteção contínua que a água fluoretada oferece.
O consultor ambiental Helvécio Carvalho de Sena, doutor em saneamento pela USP, também acredita que uma pausa de até três meses teria pequeno impacto na saúde bucal, mas o problema é se durar mais tempo, já que não se sabe por quanto tempo o desabastecimento pode continuar.
O Ministério da Saúde aponta que a água fluoretada reduz pela metade a chance de cáries, especialmente em grupos mais vulneráveis.
Segundo o ministério, representantes da Aesbe e da Abcon foram ouvidos para avaliar a situação, orientar medidas de prevenção e procurar novos fornecedores, nacionais e internacionais, além de monitorar os estoques do ácido fluossilícico no Brasil.
O ministério afirma que a suspensão do uso do ácido requer análises técnicas detalhadas e que a água fluoretada é recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Enquanto durar a possível interrupção, é importante que as pessoas cuidem da saúde dos dentes em casa, escovando pelo menos duas vezes ao dia com creme dental que contenha flúor.
Estudos mostram que o uso do creme dental com flúor reduz em cerca de 24% o avanço das cáries.
Também é indicado diminuir o consumo de açúcar e continuar visitando o dentista, especialmente quem tem maior risco de cárie.
Apesar do flúor também estar nos ossos, a falta de fluoretação da água não afeta a saúde óssea do mesmo jeito que a deficiência de cálcio ou vitamina D.
Maurício Leite, ortopedista, explica que o flúor não é um fortalecedor dos ossos e que para manter ossos fortes são mais importantes cálcio, vitamina D, exercícios, fortalecimento muscular e prevenção de quedas.
