A democracia na América Latina vive momentos delicados, refletidos em eleições marcadas por violência política, judicialização intensa, contestação aos resultados e militarização da segurança pública. Esses fatores apontam para um desgaste institucional que se espalha do México ao Chile e lança alertas importantes para o Brasil, que enfrenta 2026 com um cenário de polarização política.
Um episódio recente que destaca essa conjuntura foi a operação militar dos Estados Unidos em Caracas, na Venezuela, que resultou na prisão do presidente Nicolás Maduro. Segundo o então presidente Donald Trump, os EUA assumiriam temporariamente o controle do país para combater o narcoterrorismo, tema recorrente e central em diversas nações latino-americanas.
No Equador, a escalada da violência relacionada ao narcotráfico levou a uma eleição permeada por medo e grande presença militar. Daniel Noboa foi reeleito com foco na campanha de “guerra interna” e o uso das Forças Armadas reforçado como estratégia principal, ainda que o pleito tenha sido validado por observadores internacionais.
Na Bolívia, a vitória do candidato Rodrigo Paz, do Partido Democrata Cristão, encerrou um longo período de hegemonia da esquerda. O papel das Forças Armadas voltou a ser um tema central, reavivando memórias de instabilidades passadas. Já no Chile, após dois fracassos constitucionais e anos de descontentamento, uma virada conservadora marcou o resultado, impulsionada pelo cansaço social e insegurança econômica.
Esses padrões regionais se repetem e têm ecos diretos no Brasil, onde a militarização da segurança pública, a judicialização dos resultados eleitorais e a ascensão de narrativas autoritárias ganham força.
Militarização como foco eleitoral
A segurança pública militarizada passou a ser um eixo central nas eleições latino-americanas. No Equador, Daniel Noboa consolidou uma agenda de combate ao narcotráfico, ampliando poderes militares nas ruas. Em El Salvador, sob o governo de Nayib Bukele, a popularidade vinculou-se a políticas de encarceramento em massa e estados de exceção contínuos.
Especialistas destacam que essa militarização é uma resposta da política diante da incapacidade de resolver desigualdades sociais e fragilidades institucionais, com direitos e democracia sendo vistos como obstáculos.
O retrato brasileiro para 2026
O Brasil já experimenta reflexos dessa lógica de segurança exacerbada. A operação policial em outubro de 2025 nas comunidades do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, marcou-se como uma das mais violentas da história recente, provocando debates intensos sobre segurança pública às vésperas da eleição.
Projetos legislativos relacionados à segurança pública avançam no Congresso, como o PL Antifacção, que prevê penas severas para integrantes de facções criminosas, e a PEC da Segurança Pública, que discute alterações constitucionais importantes sobre o tema.
Judicialização das eleições
Um fenômeno visível em toda a América Latina é a judicialização extrema do processo eleitoral. Em países como Honduras, Guatemala e Venezuela, atrasos, disputas judiciais e contestação aos resultados geram instabilidade.
No Brasil, o desafio reside não só na apuração dos votos, mas na manutenção da confiança da população de que os resultados são legítimos e decididos nas urnas, essencial para a estabilidade democrática.
O avanço das narrativas autoritárias
Na Argentina, El Salvador e Guatemala, discursos que atacam instituições, a mídia e partidos políticos ganham espaço, refletindo uma crise de confiança nas estruturas democráticas.
No Brasil, tais narrativas aparecem em setores variados, especialmente ligados à extrema direita, propondo retóricas de força e exceção, que ampliam a polarização e podem enfraquecer o diálogo democrático, criando espaço para líderes que prometem soluções autoritárias.
Com esse contexto, o cenário eleitoral brasileiro de 2026 se apresenta desafiador, demandando atenção para preservar a democracia e o respeito às instituições.
