A democracia na América Latina enfrenta desafios significativos em 2025, com processos eleitorais marcados por violência política, judicializações intensas, questionamentos dos resultados e um aumento da presença militar na segurança pública, evidenciando um desgaste institucional que ocorre do México ao Chile.
Um episódio recente agravou esta situação: a operação militar dos Estados Unidos em Caracas na Venezuela, na madrugada de sábado (3/1), que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Donald Trump, presidente dos EUA, anunciou que os EUA assumiriam temporariamente o controle do país para combater o “narcoterrorismo”.
O combate ao tráfico de drogas ganhou destaque em vários países da região. No Equador, o aumento da influência do narcotráfico gerou um clima de medo e forte presença militar durante a eleição, na qual Daniel Noboa foi reeleito com um discurso centrado na “guerra interna” e no papel das Forças Armadas. Apesar de denúncias de irregularidades, a votação foi validada por observadores internacionais.
Na Bolívia, as eleições romperam um ciclo histórico do Movimento ao Socialismo (MAS), em um contexto de crise econômica, fragmentação política e acusações de manipulação do Judiciário, com as Forças Armadas novamente no centro das discussões.
No Chile, após duas tentativas fracassadas de processos constitucionais e uma crise política prolongada, a vitória conservadora foi impulsionada pelo descontentamento social, insegurança econômica e descrédito nas elites tradicionais.
Apesar das particularidades de cada país, esses eventos refletem um padrão que se estende por toda a América Latina, com impactos diretos no Brasil, que em 2026 enfrentará uma disputa eleitoral polarizada.
Militarização como foco eleitoral
A presença militar na segurança pública tornou-se um tema central nas eleições latino-americanas de 2025, muitas vezes se sobrepondo à economia e políticas sociais.
No Equador, a reeleição de Daniel Noboa fortaleceu uma agenda de combate interno ao narcotráfico, com destaque para o uso ampliado de militares nas ruas e poderes excepcionais. Este modelo vem ganhando adeptos na região.
Em El Salvador, o presidente Nayib Bukele associou sua popularidade a políticas severas de encarceramento e estados de exceção permanentes.
A cientista política Priscilla Mendes, doutora em Estudos Estratégicos da Defesa e da Segurança da Universidade Federal Fluminense (UFF), explica que “a militarização se torna uma solução rápida diante das dificuldades dos Estados para enfrentar desigualdades, fragmentação institucional e falta de confiança. A democracia e os direitos são vistos como obstáculos”.
Além disso, esse fenômeno é influenciado por uma nova estratégia dos Estados Unidos, que reconfigura a América Latina como foco de um projeto hemisférico de segurança, priorizando interesses estratégicos sobre a soberania nacional.
O cenário da segurança pública no Brasil
No Brasil, as discussões relacionadas à segurança pública já estão avançadas. Priscilla Mendes destaca que o país apresenta sinais claros de uma crescente lógica de guerra e militarização, com identificação de inimigos internos que deverão ser temas centrais na campanha eleitoral de 2026.
A megaoperação policial em 28 de outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, marcou um recorde de letalidade recente com 121 mortes, incluindo quatro policiais, reacendendo o debate de segurança no contexto eleitoral.
No Congresso, avançaram propostas como o Projeto de Lei Antifacção e a Proposta de Emenda Constitucional da Segurança Pública, prevendo penas mais severas para membros de facções criminosas, embora as análises parlamentares tenham sido adiadas para 2026.
Panorama eleitoral na América Latina
- Bolívia: Rodrigo Paz, do Partido Democrata Cristão, foi eleito presidente, encerrando dois decênios de domínio da esquerda.
- Chile: José Antonio Kast, do Partido Republicano, conquistou a presidência com uma agenda conservadora.
- Equador: Daniel Noboa foi reeleito presidente.
- Guiana: Irfaan Ali, do Partido Progressista Popular/Cívico, foi reeleito.
- Jamaica: Andrew Holness, do Partido Trabalhista da Jamaica, garantiu o terceiro mandato.
- Suriname: Jennifer Geerlings-Simons, do Partido Democrático Nacional, tornou-se a primeira mulher a presidir o país.
- Trindade e Tobago: o partido de esquerda Congresso Nacional Unido e Kamla Persad-Bissessar retornaram ao poder.
Judicialização das eleições
Outro fenômeno presente em 2025 na América Latina foi a intensificação da judicialização dos processos eleitorais, com disputas nos tribunais que atrasaram apurações e ameaçaram a estabilidade governamental, como aconteceu em Honduras, Guatemala e Venezuela.
Priscilla Mendes ressalta que “os tribunais tornaram-se arenas de disputa política, com desafios planejados antes mesmo do encerramento das votações”.
No Brasil, a preservação da confiança no sistema eleitoral será crucial para as eleições de 2026, evitando que dúvidas sobre a legitimidade dos resultados enfraqueçam a democracia.
Discurso autoritário em ascensão
Em países como Argentina, El Salvador e Guatemala, discursos contrários às instituições, à imprensa e aos partidos políticos ganham força.
No Brasil, essas narrativas já se manifestam em setores políticos ligados à extrema-direita, alertando para o risco de radicalização.
Priscilla Mendes explica que autoritarismos não surgem espontaneamente, mas são recriados e reinterpretados em contextos de cansaço social e crise institucional. “Quando líderes promovem a retórica da força e da exceção, eles não apenas mobilizam apoio, mas também colocam em xeque normas democráticas”, afirma.
Neste cenário para 2026, a normalização de discursos autoritários pode aprofundar a polarização, diminuir o espaço para o diálogo e incentivar ações que ameaçam a independência das instituições, favorecendo candidatos que prometem soluções autoritárias e concentração de poder.
