FELIPE MENDES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O mercado financeiro concorda em esperar uma redução da taxa Selic para 2026. Segundo o Boletim Focus, que reúne as previsões de economistas e instituições financeiras, a taxa de juros deve cair dos atuais 15% ao ano para 12,25%. O Comitê de Política Monetária (Copom) indicou que o primeiro corte pode acontecer em março. Se isso ocorrer, deve haver mudanças no cenário de investimentos e ajuda para empresas com mais dívidas.
Essa expectativa se baseia no melhor controle da inflação e na taxa de desemprego, que está em 5,2%, o menor valor desde 2012, segundo o IBGE. Antes, a queda nos juros não foi possível por problemas fiscais e incertezas no cenário internacional.
Na bolsa de valores brasileira, a queda dos juros deve beneficiar principalmente construtoras e lojas de varejo, que dependem de crédito para financiar imóveis e compras de produtos duráveis. Porém, por ser ano de eleição, o mercado pode ficar mais instável, o que pode limitar o crescimento da Bolsa, especialmente no segundo semestre.
“Esse movimento ajuda principalmente empresas ligadas ao consumo, que costumam ter dívidas maiores e são sensíveis às despesas financeiras, porque trabalham com margens mais apertadas”, explica Nícolas Merola, analista da EQI Research. “Muitas dívidas dessas empresas têm prazos curtos. Com a queda da Selic, elas ganham um alívio imediato, o que ajuda suas margens a crescerem.”
O setor de serviços públicos, como energia e saneamento, também é uma boa opção para investimentos em 2026. Esses papéis tiveram uma valorização maior que o Ibovespa no último ano e são considerados mais seguros em tempos de incerteza, pois trabalham com contratos de longo prazo e receitas previsíveis. “São ações com bom equilíbrio entre risco e retorno, protegidas contra a inflação”, completa o analista da EQI.
A queda da Selic também é benéfica para ações com menor volume de negociação na Bolsa. “Essas ações costumam se valorizar em ciclos de juros em queda, com reavaliação de múltiplos e migração de dinheiro da renda fixa para a Bolsa. Esse processo já começou com o fechamento das curvas futuras e a alta forte do índice em 2025”, afirma Enrico Cozzolino, CEO da CZZ Capital.
Ibovespa em alta pede cuidado
O Ibovespa cresceu 34% em 2025, impulsionado por entrada de capital estrangeiro, atraído pela desvalorização do dólar e retomada dos mercados emergentes. Em 2026, o índice continuou a subir, mas as eleições presidenciais podem aumentar os riscos para os investidores.
“Parte da descompressão dos múltiplos da Bolsa já ocorreu, e o cenário eleitoral pode trazer volatilidade. Gostamos da Bolsa, mas estamos reduzindo um pouco nossa exposição, especialmente no início do ano, aproveitando o último potencial de valorização”, comenta Caio Zylbersztajn, sócio da Nord Investimentos.
Renda fixa
Com a queda dos juros, o perfil dos investimentos em renda fixa vai mudar. Títulos pós-fixados atrelados à Selic terão rentabilidade menor. Para quem quer evitar o risco da Bolsa, outras opções ganham destaque. “Não podemos esquecer que títulos prefixados se beneficiam diretamente da queda dos juros”, destaca Merola, da EQI.
Para investidores interessados em títulos públicos, Zylbersztajn recomenda as NTN-Bs, Notas do Tesouro Nacional Série B. “Há bastante atratividade nos títulos públicos indexados, especialmente com vencimentos entre 2035 e 2040”, afirma o sócio da Nord Investimentos.
Segundo Angelo Belitardo, gestor de investimentos da Hike Capital, o cenário incerto exige cautela. “O investidor deve priorizar ativos indexados ao CDI, com baixa oscilação e alta liquidez, para poder mudar de estratégia se necessário. Recomendo fundos de direitos creditórios, fundos de debêntures e fundos de baixo risco de crédito.”
